[Este artigo é na verdade um fichamento do magnifico livro HISTÓRIA DAS
LIVRARIAS CARIOCAS, de Ubiratan Machado,
editado pela EDUSP em 2012. Suas 487 páginas cobrem com rigor e minúcia o
período que se inicia com Antônio Máximo de Brito solicitando à Coroa
portuguesa licença para importação de 20 livros em 1775 até o rebuliço causado
pela Estante Virtual em 2010. Acrescentei de alguns fatos posteriores relevantes
e algumas narrativas pessoais - trabalho no ramo desde 1998 e hoje gerencio a
Baratos da Ribeiro Livraria, em Botafogo.]
A Belle Époque
Na década de 1870 há um aumento significativo de SEBOS no Rio de
Janeiro – natural consequência da consolidação
do negócio de livros novos. Em 1871 são 35 livrarias cariocas, das quais 18
são alfarrabistas, concentrados inicialmente na Rua do Parto (atualmente
São José) e depois se espalhando pela Uruguaiana. Entre a Praça da Constituição
(atual Praça Tiradentes) e a Ouvidor outras ruas entram no mapa dos leitores: a
Gonçalves Dias, a General Câmara (antiga Rua do Sabão), a Alfândega e
principalmente a Rua da Quitanda.
Em 1871 o baiano Serafim José Alves, primo de Castro Alves, adquire a
Livraria Econômica, que ele transfere
6 anos depois para a Rua 7 de Setembro 83, onde passa a atuar como
encadernadora e tipografia, alcançando o posto de terceira maior editora do
país– atrás da Garnier e da Laemmert. Graças à edições econômicas - como do popular “O conselheiro dos Amantes”,
de 1876 – e aos livros espíritas - a livraria torna-se ponto de
convergência da comunidade kardecista. Em 1891 Serafim decide voltar à Bahia e
passa o negócio a dois funcionários – entre eles o Pedro da Silva Quaresma.
Outra livraria da safra 1871 é a Livraria Azevedo, na Rua Uruguaiana e
que funcionará no mesmo endereço (número 29) por mais de 60 anos. Em 1909 passa a editar livros e se torna ponto de
encontro dos filólogos cariocas. Entre eles está Joaquim Abílio Borges, dono do
mais famoso colégio da Corte , o Abílio – caricaturado por Raul Pompéia em
“O Ateneu”.
A LIVRARIA LOMBAERTS,
fundada
em 1848, cresce em importância no meio
literário quando morre o fundador, em 1875, e seu filho Henrique assume o
timão. Desde o nascimento a casa inclui uma agitada tipografia, a maior
litografia da cidade e a encadernadora primorosa (a predileta de Dom Pedro II).
Está instalada com luxo na Rua dos Ourives 7, quase esquina com Ouvidor –
um trecho desaparecido com a construção da Avenida Central (atualmente Avenida
Rio Branco). Oferece serviço de assinatura de periódicos estrangeiros – de
praticamente qualquer país europeu –, possui um notável acervo de livros de
Medicina e entrega em todo o Brasil. Além dos tradicionais livros franceses,
importa também os grandes autores da terrinha, como Eça de Queirós e Antero de
Quental. Quando Machado de Assis se
aborrece com Garnier, é para a Lombaerts que arrasta seu séquito. Machado passa
também a contribuir para “A Estação”, revista editada por Henrique.
Infelizmente o belga, que havia chegado ao Rio ainda de fralda, falece em 1897
com apenas 52 anos. A Lombaerts entra em decadência e em 1904 entra em
liquidação, sendo adquirida pela Livraria Francisco Alves.
A nata da intelectualidade brasileira se reúne, durante a década de
1880, na Garnier, na Lombaerts, na Laemmert e na Livraria Contemporânea– na Rua do Ouvidor 74, fundada em 1881. Entre os
mais assíduos na Contemporânea estão Valentim Magalhães, Taunay, André
Rebouças, Rau Pompéia, Aluísio Azevedo, Capistrano de Abreu e Teixeira de Melo
– este fundador da revista Gazeta Literária, cujas vendas e assinaturas são ali
efetuadas.
A Livraria e tipografia Universal, dos irmãos Laemmert (e por esse nome
conhecida), surge na década de 30 e tem ininterrupto sucesso, tanto no varejo de livros quanto na edição, impressão
e distribuição de seu próprio catálogo – a Folhinha Laemmert alcança tiragem de
100 mil exemplares na edição de 1900 e o períodico “Almanaque Administrativo,
Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro”, conhecido popularmente como
Almanaque Laemmert, dura até 1928. São os irmãos alemães os editores de “Os
Sertões” de Euclides da Cunha. A última sede da empresa, inaugurada em 1899, é
considerado o edifício mais luxuoso da rua mais refinada da cidade, a Rua do
Ouvidor. Em 1909 um incêndio destrói o sobrado, e a livraria nunca mais
reabre. Os direitos autorais de seu catálogo são vendidos à Francisco Alves.
O Segundo Império é o grande momento de expansão da rede de ensino
brasileira, tanto pelas necessidades
estruturais do país como pelo espírito de Dom Pedro II, entusiasta das Artes e
da Ciência. A alfabetização e instrução da população tanto suscita a expansão
do negócio livreiro e editorial como viabiliza edições mais modestas, baratas e
com grande tiragem. Em 1883 a livraria lisboeta David Corazzi instala uma
filial na Rua da Quitanda 40 e faz sucesso com a “Biblioteca do Povo e da
Escola”: livrinhos de 15,5 cm por 10,5 cm, em linguagem coloquial, apresentando
em linhas gerais os mais diversos assuntos.
Quem também aposta da popularização do livro é a LIVRARIA E EDITORA
QUARESMA, mas aposta num filão menos
nobre, mal visto até. Na seção “Leitura para Homens” os títulos são
provocantes, como “Elzira ou Os amores de uma moça endiabrada, que acaba de
morrer este ano na Bahia, depois de ter pintado o sete no Rio de Janeiro”. Já
“Gravetos Realistas” é uma “coleção de cenas e quadros vivos e descrição de
orgias”, assinado por J. de S. Pelaio. O promotor dessa literatura
licenciosa é o livreiro Pedro Quaresma, natural de São Fidélis e que depois de
uns anos empregado na Livraria Econômica abre seu próprio sebo na Rua São José
(números 65 e 67), em 1883. É um comerciante hábil e sem preconceitos ou
moralismos, e também um sujeito pacato e ligado à família, mas que gosta dos
debates literários e se empenha sinceramente no aspecto educativo de seu
trabalho – o frequentador Herrero Filho testemunha que o livreiro costumava dar
livros a estudantes pobres e não cobrava o fiado oferecido a clientes em
penúria. Quaresma impressionava com os textos mirabolantes e superlativos com
que anunciava as novidades em sua livraria – Machado de Assis, um de seus
grandes clientes, talvez tenha se inspirado nele para compor o personagem José
Dias, de “Dom Casmurro”.
Quaresma se lança na atividade editorial publicando folhetos de música
popular e livros infantis, com retumbante sucesso. Em 1900 sua “Histórias da Avozinha”, impressa em
papel acetinado, é o primeiro livro a ser ilustrado por opção do editor,
encomenda feita a Julião Machado. Catullo da Paixão Cearense afirma que
Quaresma “ganhou rios de dinheiro” com seus livros de modinhas. Depois de
insistentemente recusada pelos editores cariocas, “A Mulata”, de Carlos
Malheiro Dias, é editada por Quaresma, em 1896: com extremo sucesso. Machado
de Assis passa quase diariamente pela Livraria do Povo (nome fantasia da firma,
mas que mesmo nos anúncios é muitas vezes preterido, em prol do prosaico
“Livraria Quaresma”), quando a caminho de seu gabinete no Ministério da Viação.
A livraria agrada ao escritor por sua simplicidade, escuridão e silêncio.
Quanto a esta última característica: é questão do horário. À tardinha a casa
se enche de cantores, seresteiros e compositores. Pedro Quaresma falece em
1921, já a Livraria do Povo resistirá até a década de 1960.
O SUCESSO DO LIVREIRO e editor FRANCISCO ALVES está diretamente ligado
à difusão do livro didático. E sua origem profissional, como foi praxe por
muito tempo, está nos livros de segunda mão. Sua primeira livraria é outra da safra de 1871: um pequeno sebo na Rua
São José 126, montada oito anos após deixar a Cabeceira do Basto, em Portugal.
Em 1882 seu tio lhe propõe sociedade na Livraria Clássica (Rua Gonçalves Dias
48). Francisco Alves de Oliveira tem 34 anos sua sagacidade, ímpeto e
tenacidade comercial é tão monumental quanto seu temperamento irascível e sua
mesquinharia. É descrito como grosseiro e desbocado. Em um ano o antigo
sócio de seu tio pula do barco, vendendo sua parte à Francisco Alves – que se
naturaliza em julho de 1883. Em 1897 é o tio Nicolau quem joga a toalha, se
tornando Francisco o único proprietário.
Desde cedo Francisco Alves define como alvo os estudantes colegiais e
universitários. E se incumbe,
enquanto editor, a substituir os manuais franceses e portugueses por textos da
autoria dos acadêmicos brasileiros. Em poucos anos a Francisco Alves se
torna a principal livraria e editora do país.
Fundada como sebo em 1900, a Livraria Castilho será considerada por
Antônio Torres “a mais ilustre do mundo”. Em 1902 se muda para a Rua São José 108 (depois renumerado para 114),
bem ao lado a estação dos bondes, e passa a vender apenas livros novos. Uma
década depois o livreiro Antônio Joaquim de Castilho já recebe uma turma
ilustre: Barbosa Lima, Lima Barreto, Catulo da Paixão Cearense, Gastão Cruls,
Gilberto Amado, Cândido de Campos, Leonardo Mota e outros escritores de
inclinação mais festiva. Como editor Castilho aposta tanto nos autores patrícios
como em estrangeiros, em especial naqueles que agradam às senhoritas –
introduzindo no Brasil os folhetins de M. Delly, Guy de Chantepleure e Henri
Ardel. Quando vem os tempos das vacas magras se muda para a Rua da Assembléia e
abre filial em Copacabana. As vacas não se salvam; em 1932 passa adiante as
firmas e ingressa na livraria Civilização Brasileira como balconista. Mas o
prestígio adquirido lhe salva e em 1937, graças à ajuda de Augusto Frederico
Schmidt, consegue um posto no Instituto Nacional do Livro, recém criado por
Getúlio Vargas.
A Garnier ainda tem fôlego na aurora do século. O número 7 da Rua do
Ouvidor reúne ainda tantos artistas de renome que os turistas para lá afluem
caudalosamente, até mais desejosos de encontrar seus ídolos - Machado de Assis
ou Euclides da Cunha, quicá João do Rio - do que escarafunchar as estantes. Ali se esbarram e eventualmente se degladiam diversas
facções literárias; sejam machadianos como Pardal Mallet, Paula Nei e Raul
Pompéia; os irreverentes simbolistas como Saturnino de Meireles, Félix Pacheco,
Maurício Jubim e Tibúrcio de Freitas; ou ainda parnasianos como Bilac, Guimarães Passos, Alberto de Oliveira e
o jovem Humberto de Campos. A italiana Gina Lombroso Ferrero, de férias por
essas praias em 1907, escreve: “a Livraria Garnier do Rio não é, na verdade
um simples estabelecimento comercial, mas um clube, uma academia, uma corte de
mecenato”.
O italiano Saverio Fittipaldi é outro livreiro com ares de mecenas, e
que se distingue de seus pares pela erudição, simpatia e idealismo. Desembarca no
Rio aos 6 anos e desde os 13 trabalha com o pai numa banca de jornais, revistas
e livros ao lado do Teatro de São Pedro (atual teatro João Caetano). Quando o
pai retorna à Potenza, Fittipaldi fica por conta própria e passa a vender
livros usados. Em 1919 funda na área da Praça Tiradentes a Livraria Carioca,
que rebatiza Livraria João do Rio quando da morte de seu ídolo e amigo, em
1921.
Outros
de seus clientes amigos são Evaristo de Moraes, o arroz-de-festa Catulo,
Agripino Grieco, João Ribeiro e Ronald de Carvalho. Saverio também funda uma
tipografia (na esquina da Rua Acre com a Ladeira Felipe Neri, atual Ladeira
de João Homem) que lançará mais de 600 obras. Os folhetos de João do Rio são
um marco na indústria editorial brasileira; suas capas sugestivas e de
cores intensas inspirarão inúmeros concorrentes, como a carioca H. Antunes e a
paulistana Livraria Editora Pauliceia. Em 1937 Fittipaldi muda-se para São
Paulo, onde funda a Editora das Américas.
Quando
Sérgio Buarque de Holanda chega ao Rio de Janeiro em 1921 é um genuíno e
literal palacete de livros que o seduz:
a LIVRARIA LEITE RIBEIRO
ocupa a esquina das ruas Bittencourt da Silva e 13 de Maio, em frente ao
Tabuleiro da Baiana, ponto dos bondes para Copacabana e Ipanema. O magnífico
projeto do arquiteto Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, fundador do Liceu de Artes e
Ofícios, ostenta uma fachada de 100 metros e 30 vitrines. No segundo
andar se instala a redação de O Globo. A livraria se destaca por um estoque de
livros acadêmicos e científicos tão imenso quanto o de literatura e amenidades.
Seu salão dispõem de cadeiras para os clientes e até de sofás. Da década de 20
até a de 40 ali se reúnem intelectuais das mais diversas áreas e tendências:
Luís da Câmara Cascudo, Humberto de Campos, Carmen Cinira, Múcio Teixeira, Di
Cavalcanti, Josué Montello, Madame Chrisanthéme, Olegário Mariano, Oswald
Beresford, Monteiro Lobato, Zilá Monteiro, Hermes Fontes, Odilon Azevedo e
Benjamin Costallat, dentre tantos.
Um feito e tanto, dentre muitas proezas deste filho de um humilde
comerciante português casado com uma baiana. Carlos Leite Ribeiro nasceu em
1858 e se cresceu conciliando trabalho e estudo, desde os 9 anos, forjando um
espírito valente, tenaz e ambicioso.
Com apenas 20 anos já é inspetor de quarteirão, um cargo ligado à polícia, e
pouco depois torna-se amigo de José do Patrocínio, ingressando na redação da
Gazeta da Tarde. Republicano e abolicionista, Leite Ribeiro transforma sua
primeira loja – eu vende charutos, cigarros, perfumaria e objetos de fantasia –
num antro de agitadores políticos. Quando seu amigo Prudente de Moraes é
eleito presidente da República, Leite Ribeiro se torna delegado de polícia
(1897-98). Gerencia a mais antiga empresa seguradora do Brasil (a Caixa Geral
das Famílias, entre 1900 e 1908), é eleito para o Conselho Municipal (1902),
assume interinamente o cargo de prefeito do Distrito Federal (1902), obtém um
mandato na Câmara dos Deputados (1905-06) e finalmente decide abrir uma livraria,
em 1917.
A subversão não é apenas política, mas também estética. O caso mais
escandaloso é o do romance “Mademoiselle Cínema”, de Benjamin Costalllat, que a Livraria Editora Leite Ribeiro lança em 1924.
Não só os moralistas protestam contra a obra como a polícia faz busca e
apreensão na livraria – o que só faz crescerem as vendas. Cansado de polêmicas
e bafafás literários, e sobrecarregado com seus outros empreendimentos, Leite Ribeiro
vende a livraria e editora para um certo advogado recifense:
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Maurício
Andrade Gouveia, com a colaboração de Isidro Pontes
a
partir de pesquisa de Ubiratan Machado
Rio
de Janeiro
Maio
de 2025











