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História das Livrarias Cariocas: Rio, capital do Império

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A HISTÓRIA DAS LIVRARIAS CARIOCAS É TAMBÉM, em grande medida, A HISTÓRIA DA INDÚSTRIA EDITORIAL BRASILEIRA: tanto pelas livrarias serem o ponto de encontro dos intelectuais – e de suas idéias -, como – especialmente – pelos editores brasileiros terem começado sua carreira em balcões de livrarias, notadamente de livrarias cariocas. Essa história é ainda um testemunho do poder transformador das idéias: a literatura – seja científica ou ficcional – é o primeiro campo de batalha, antecipando o destino das causas e valores em disputa na sociedade. Se hoje, em 2025, nos deprime o assustador poder dos reacionários, há de nos confortar esse retrospecto histórico: em que brilha tão mais forte os nomes progressistas.

 

[Este artigo é na verdade um fichamento do magnifico livro HISTÓRIA DAS LIVRARIAS CARIOCAS, de Ubiratan Machado, editado pela EDUSP em 2012. Suas 487 páginas cobrem com rigor e minúcia o período que se inicia com Antônio Máximo de Brito solicitando à Coroa portuguesa licença para importação de 20 livros em 1775 até o rebuliço causado pela Estante Virtual em 2010. Acrescentei de alguns fatos posteriores relevantes e algumas narrativas pessoais - trabalho no ramo desde 1998 e hoje gerencio a Baratos da Ribeiro Livraria, em Botafogo.]

 

O RAMO LIVREIRO TEM AINDA UMA CARACTERÍSTICA PECULIAR E HOJE MUITO VALORIZADA: é um setor que nunca exigiu diplomas ou certificados. Ainda hoje, e provavelmente sempre: não há e não haverá formação técnica capaz de preparar alguém para o ofício. De modo que gente de origem muito humilde foi acolhida nas livrarias e nesse ambiente prosperou. Esse aspecto é notável na trajetória do primeiro grande livreiro brasileiro: Paula Brito.

 

Rio: Capital do Império

 

Mas antes: falemos de LOUIS MONGE, francês que inaugurou a filial da livraria parisiense (fundada por seu pai) no Rio em 1836, na Rua do Ouvidor 87  (trecho que desaparecerá com a abertura da Avenida Central), e que é o primeiro salão-literário-em-ponto-comercial do país. O ramo foi de início dominado por estrangeiros, pois o livro foi um produto exclusivamente importado até a chegada da Corte Portuguesa em 1808 – quando Dom João VI permite a atividade tipográfica na agora capital do Império, não mais colônia.

 

“Mongie adapta-se ao Rio de Janeiro com a facilidade de um peixe de aquário solto num rio. Sem preconceitos, muito instruído e espirituoso, excelente orador, gostava de conversar com os clientes e de ver a loja frequentada por intelectuais” – como Torres Homem, Gonçalves de Magalhães, Porto-Alegre e Gonçalves Dias. Dos frequentadores mais assíduos, Joaquim Manoel de Macedo afirma que a Livraria Mongie foi “a mais considerável de seu tempo, preciosa fonte de civilização”. E desde desta época: as mulheres constituem público importantíssimo, por serem as maiores consumidoras de romances e novelas– e também dos famosos papéis pintados franceses, utilizados na decoração das casas.

 

Mongie é o primeiro livreiro estabelecido na praça a apostar no livro didático, e há uma anedota– narrada por Macedo – que registra o espírito descontraído e brincalhão de Louis. Um diálogo com seu vizinho e amigo Desmarais, famosíssimo cabelereiro e perfumista:

 

“Você adorna as cabeças por fora, e eu as adorno por dentro; creio que sou mais útil; mas você tem mais cabeças a adornar.”

“Concordo; mas troquemos as lojas com a condição de trocarmos também as cabeças; não as dos fregueses, sim as nossas.”

 

O GUERREIRO DAS LETRAS Francisco de PAULA BRITO:

 

Neto de africanos escravizados, de origem humílima, Paula Brito adquire de um primo, em 1831, uma pequena livraria e papelaria – que também vende chás e umas outras miudezas - na Praça da Constituição (atualmente Praça Tiradentes). Tinha apenas 22 anos e já era um tipógrafo experiente. Luta para manter de pé o negócio, até que a mudança para uma loja do outro lado da praça – número 78 –, em fins da década de 1840, lhe traz os ventos da bonança. E as atividades da sua Tipografia Dois de Dezembro também decolam.

 

(Recomendo o excelente livro “Paula Brito: editor, poeta e artífice das Letras”, organizado por José de Paula Ramos Jr., Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins Filho e editado pela EDUSP, em parceria com a Com Arte, em 2010.)

 

É o primeiro livreiro a dar primazia aos autores nativos e jamais recusa suas estantes aos autores editados por terceiros. Com a prematura morte de Mongie em 1853 a agitação literária se transfere para a casa do simpático e acolhedor livreiro-editor. Permite todos os debates, exceto os políticos, o que resulta num ambiente de fraternal convívio entre os partidos e ideologias. Ali funciona uma das mais sadias confrarias carivcas, a descontraída Petalógica. Aos sábados se reúnem nos bancos da praça, em frente à livraria, para longos debates sobre arte e literatura.

 

No balcão da livraria Maciel Monteiro teria escrito o célebre soneto “Formosa Qual Pincel em Tela Fina” e onde negociavam os ainda caixeiros Casimiro de Abreu e Teixeira e Sousa. Outro vendedor-de-porta-em-porta conseguiu ali um emprego melhor: Quintino Bocaiúva ali conversava com Machado de Assis e ali decidiu mexer os pauzinhos para que o jovem fosse contratado pelo Diário do Rio de Janeiro como repórter– em 1860.

 

MACHADO DE ASSIS, outro afro-brasileiro a quem devemos as fundações de nossa literatura, foi também um apaixonado por livrarias, registrando cenas e hábitos em seus contos e novelas. Estar no roteiro do Bruxo do Cosme Velho era uma prova das qualidades e importância cultural de um estabelecimento. Em 1868 seu conto “O segredo de Augusta” descreve o popular hábito da entregue de livros em domicílio – em parte por ser visto como indecoroso que mulheres fossem desacompanhadas às livrarias. Nessa época o livro já é considerado um presente requintado, perfeito para ocasiões como o Natal e o Reveillon.

 

Uma curiosidade é que as festas juninas também seja um período quente para o comércio de livros, mas de um tipo muito específico de livros: os baratinhos oráculos e compêndios de mandingas – com títulos como “A roda do destino”, “Verdadeiro oráculo das damas e donzelas”, “A mesa que dança” e “Oráculos de Delfos”. A Livraria Laemmert é das mais rápidas no gatilho, aproveitando o ímpeto brasileiro para o sincretismo místico.

 

A LIVRARIA GARNIER:

já era um negócio de sucesso quando ganha também prestígio. São três irmãos livreiros que iniciam a carreira ainda adolescentes – os mais velhos abrem sua primeira livraria, no Palais Royal, ao completarem 17 e 22 anos, em 1833. Quando Napoleão manda prender Auguste e Hippoyte após publicarem uma obra de Proudhon, o caçula Baptiste Louis Garnier começa a planejar seu futuro no além mar. Chega no Rio de Janeiro em 1844, com 21 anos, no mesmo navio que traz o futuro frei Camilo de Monserrate, que dirigirá a Biblioteca Nacional. Garnier se estabelece na Rua do Ouvidor, provisoriamente na esquina com a Rua da Quitanda e definitivamente no número 69 (depois renumerada 65), onde permanece por 3 décadas. Começa vendendo chapéus, sombrinhas, pomadas, pílulas, charutos, estatuetas e artigos de papelaria, além de livros e outros tantos badulaques.É só na década de 1850 que a loja de Garnier passa a se dedicar integralmente ao livro. Adota uma estratégia: vende caro e jamais dá um centavo de desconto.

 

Com a morte de Paula Brito em fins de 1861, sua corte de intelectuais procura um novo salão. Garnier acolhe os autores nacionais, passando a editá-los com timidez, mas sem que eles precisem coçar o próprio bolso. O livreiro francês coloca então bancos na parte dianteira da livraria, para que se possa prosear enquanto se aprecia o movimento da rua. É nesses bancos que Machado de Assis trava relações com José de Alencar, a estrela maior do momento e autor editado pela casa. Depois das 3 da tarde, quando se encerra o expediente nas repartições públicas, a livraria se enche de clientes e curiosos.

 

A livraria Garnier é a primeira da cidade a expor livros em vitrines, e seu proprietário passa a circular na alta sociedade do Império, mesmo sendo considerado um excêntrico– tem hábitos marciais, mas é displicente com a aparência. Em 1866 recebe o título de Livreiro do Instituto Histórico, no ano seguinte é condecorado com a Ordem da Rosa e em 1868 recebe a comenda de cavaleiro da Ordem de N. S. Jesus Cristo – mas não gosta que lhe tratem por comendador. Na verdade não gosta de misturar-se ao falatório dos clientes e passa os dias enfurnados nos fundos da loja, fumando incontáveis charutos enquanto anota e despacha. Mas é solícito quando requisitado. E amabilíssimo com todos, inclusive com os funcionários – mesmo quando se trata de despedi-los. É extremamente sovina, mas faz importantes doações a clubes literários, bibliotecas e mutirões para instrução popular – por todo o país.

 

Entre os clientes com quem travou maior amizade estão José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, o astrônomo Emmanuel Liais e o tio do futuro Visconde de Taunay. Um hábito trivial no comércio da época se tornará, com o tempo, uma excentricidade das – melhores – livrarias: receber recados de uns frequentadores para outros e anunciar serviços de seus clientes, como por exemplo: aulas particulares. Clientes mais especiais passarão até a usar o endereço de sua livraria predileta para receberem suas correspondências!

 

Em 1866 dois empregados da Garnier, seu sobrinho Auguste Fauchon e Émile Dupont, adquirem a Livraria da Casa Imperial, na Rua Gonçalves Dias 75, que passa a ser conhecida simplesmente como LIVRARIA FAUCHON:

 

situada a alguns passos da redação do jornal A Reforma (na Rua do Ouvidor), se torna o ponto de encontro dos intelectuais progressistas (à época chamados liberais). A alma dessas reuniões é o tribuno gaúcho Silveira Martins, que está apaixonado pelo idioma árabe, que aprende com o recém alforriado Adriano, quitandeiro do Largo da Sé (atualmente Praça XV). Fauchon e Dupont passam a importar livros árabes e vendem uma centena de edições do Corão todos os anos – a maioria comprada à prestação, com muito suor, por escravizados e africanos e afrodescendentes alforriados.

 

Fauchon e Dupont chegam a tentar o ramo editorial – com “Brasil Histórico” de Melo Moraes -, sem sucesso. Rompem a parceria em 1869. Augusto abre a Livraria Enciclopédia (Rua Gonçalves Dias 72) e depois torna-se sócio da Livraria Contemporânea, que por volta de seu falecimento, em 1890, está situada na Rua São José 94.  

 

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Maurício Andrade Gouveia, com a colaboração de Isidro Pontes

a partir de pesquisa de Ubiratan Machado

Rio de Janeiro

Maio de 2025


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