FINALIZADA A LEITURA: "VERNON SUBUTEX" ENTRA PRA LISTA DOS MEUS 13 ROMANCES PREDILETOS, dos treze romances que mais mexeram comigo, mais me emocionaram.
OUSO DIZER QUE ESSA É A OBRA LITERÁRIA QUE FECHA O SÉCULO XX, assim como creio que na música pop o século XX se encerra com "Blackstar" e "No Plan" do David Bowie - a epígrafe do último volume da trilogia de Virginie Despentes, publicado na França em 2017, é uma citação de "Lazarus": "Look up here, i´m in heaven / I´ve got scars that can´t be seen / I´ve got drama, can´t be stolen / Everybody knws me now". A obra começou a ser publicada em 2015, ano em que Bowie foi diagnosticado com câncer.
QUASE TODA A OBRA É UMA ATUALIZAÇÃO DO GRANDE ROMANCE DE COSTUMES DO SÉCULO XIX: um abrangente e apurado painel dos tipos de uma época, como Honoré de Balzac e Guy de Maupassant, mas com um compromisso ideológico - uma militância - digna de Émile Zola - Despentes está interessada no lumpemproletariado, não no high society, e é isso que faz dela uma autora de "pegada rock´n´roll".
Décadas atrás o Thomas Pynchon fez algo próximo em "O arco-íris da gravidade", e José Agrippino de Paula em "PanAmérica", mas essas 2 obras não tem o realismo que marca os autores franceses supracitados, e que é uma marca de quase todo o "Vernos Subutex". Já o subjetivismo típico da literatura do século XX permanece nessa obra de Despentes, mas arranjada de modo muito inventiva e incomum - que nada tem a ver com o viés psicanalítico, recorrente na produção literária das últimas décadas. Virginie Despentes meio que "resolve" o eventual dilema entre realismo / crítica social e subjetivismo.
MAS O ÚLTIMO CAPÍTULO DE VERNON SUBUTEX É PURA FICÇÃO CIENTÍFICA, do subgênero "sociologia especulativa". As fotos que seguem são dessas derradeiras páginas: mas não se preocupe com spoilers: não há nenhuma informação que antecipe as reviravoltas as trama ou revele algo minimamente importante. É como o último capítulo da série "Six Feet Under / A 7 Palmos".
VERNON SUBUTEX PARECE "MICRO-HISTÓRIA FICCIONAL" (no sentido do Carlo Ginzburg) PRA FÃS DE ROCK´N´ROLL, MAS SOB ESSE DELICIOSO E APARENTEMENTE PROSAICO CAUSO dum ex-vendedor de discos que luta pra não virar morador de rua: DESPENTES CONSTRÓI UMA AMBICIOSA SAGA QUE ANTECIPA O DESFECHO DE DRAMAS REAIS E GLOBAIS QUE JÁ ESTÃO ACONTECENDO, mas que talvez poucos de nós estejam enxergando:
# o colapso da Europa enquanto potência econômica;
# o colapso das identidades nacionais frente aos fluxos migratórios;
# o colapso dos movimentos de esquerda por uma incapacidade de se compreender o que faz os pobres votarem na extrema direita - e a dificuldade de se reconhecer como legítimas e dignas as preocupações que empurram esses eleitores para o voto conservador;
# o domínio das tecnologias de comunicação pela elite político-econômica, desfazendo toda a esperança de que esse avanço tecnológico possa servir à quem luta contra o status quo.
finalizando:
A SAGA DE VERNON SUBUTEX É UMA APAIXONADA HOMENAGEM AO ROCK & SEUS DERIVADOS, E À DANÇA E À INTIMIDADE. Uma imensa elogia à amizade e ao convívio íntimo, entrementes o "sexo amoroso".
DESPENTES DESCREVE O FIM DE UM MUNDO, mas o faz contando, grosso modo falando, a última experiência vitoriosa de apaziguamento e cooperação entre um grupo de pessoas super mega diverso. E que afinal sucumbe porque são poucos, e seus algozes: poderosos e violentos demais.
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A LISTA DOS MEUS ROMANCES PREDILETOS:
"Miss Corações solitários / Dia do Gafanhoto", Nathaniel West
"Mas Não Se Matam Cavalos?", Horace McCoy
"Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley
"Bolor", Augusto Abelaira
"O amor nos tempos do cólera", Gárcia Marquez
"Três mulheres de três pppês", Paulo Emílio Sales Gomes
"Vista da Paia", José Couto Nogueira
"O amor é fodido", Migue Esteves Cardoso
"O Buda do Subúrbio", Hanif Kureish
"O chão que ela pisa", Salman Rushdie
"Do amor ausente", Paulo Roberto Pires
"O vento que arrasa", Selva Almada
"Vernon Subutex", Virginie Despentes




















