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Channel: porque de nada sirve escaparse de uno mismo
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Proponho uma nova rede social

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ANDEI PENSANDO SOBRE A CRISE DAS REDES SOCIAIS, depois do Zucka anunciar a zica toda, E TENHO UMA SUGESTÃO PRA SAIRMOS DESSA ARAPUCA.

As redes sociais já foram melhores. E poderiam ter sido incríveis. Vim pro Rio estudar jornalismo em 1997: e o grande debate era sobre como a internet transformaria o mundo. Tudo era incipiente – pouca gente tinha acesso, as ferramentas estavam nascendo e a velocidade da conexão e a capacidade de armazenamento aumentavam à galope! Minha geração, que cresceu praticamente sem a web: vislumbrou um futuro utópico.

Meu argumento: nós IMAGINAMOS o bem que a web poderia proporcionar. E cumpadi: era tudo muito maravilhoso!

O que aconteceu? A grana dominou. Não os esforços coletivos, não as entidades representativas, não as comunidades organizadas em torno de hobbies, não os grupos de pesquisa. As Corporações se apropriaram dum espaço público, roubaram nossos dados e sabotaram as relações pessoais nesse ambiente.

Os donos da web querem que você se relacione com marcas e produtos, não com outras pessoas. E O PULO DO GATO PRA IMPLEMENTAR ESSA DISTOPIA foram as redes sociais. Todo mundo acessa a web, mas muita gente hoje restringe sua navegação às redes sociais. Mesmo quando surge um link pra fora delas: não clica. Isso vale até pro Google: que antes apenas direcionava os usuários para outros sites, e hoje usa a I.A. para dar as respostas ali mesmo, escondendo as fontes de onde tirou as informações.

A SUBSTITUIÇÃO DOS “AMIGOS” POR “SEGUIDORES” foi o tiro de misericórdia.“Amigos” implica algum vínculo (e com isso: algum cuidado e respeito para com os outros, uma relação horizontal), já aos “seguidores” nada é devido: não gostou? Foda-se. Insistiu? É um “hater” e não merece piedade alguma. O feicebuqui tinha um limite de 5 mil amigos por perfil. Seguidores? Podem ser milhões. E com milhões: é impossível existir relacionamento. Com milhões há apenas IBOPE e engajamento: que é uma medida da sua capacidade de promover marcas e produtos.

TÁ FELIZ COM ISSO? Eu não. BORA SAIR DESSA?

Proponho uma rede social baseada em interações lentas. Espaços onde seja necessário estar por muito tempo (em que cada acesso tome 1 ou 2 horas, no mínimo), e aos quais não possamos ir toda hora e nem tão facilmente (um ou dois acessos por semana tá de bom tamanho), de modo que nossa rotina não seja definida por essa rede social.

Proponho uma rede social com feedback ultra instantâneo e onde maus comportamentos resultem em penalidades imediatas. Espaços onde discursos de ódio e agressões suscitem reações duras e enérgicas. Do tipo que podem levar o infrator ao pronto socorro.

Proponho uma rede social em que a moderação seja feita de forma orgânica, horizontal e relativamente democrática: pelas pessoas reunidas naquele lugar e momento – sendo respeitado o peso maior da opinião de quem está promovendo o encontro, supondo ainda que o promotor do evento (aquela reunião específica de usuários) estipulou previamente algumas regras de convivência.

Proponho não uma, mas várias redes sociais. Que os usuários participem de várias plataformas, e que algumas delas sejam inclusive provisórias.

Proponho redes sociais comprometidas com a criação de vínculos interpessoais que deverão ser desenvolvidos e aprimorados fora delas. Redes que estimulem aos seus usuários agendarem outras interações, longe das vistas dos outros usuários. Interações das mais íntimas e até secretas.

Proponho redes sociais abertas à absolutamente todo mundo. Redes que não exijam qualquer gadget e que funcionem em modo wireless e até powerless – que dispensem até eletricidade.

SABE O QUE É LINDO?

É QUE ESSAS REDES JÁ EXISTEM, mas andam sendo ignoradas por muita gente.

Falo da praia, das praças, das festas, dos cafés e das livrarias. Falo também de lugares que eu não frequento: academias, rodas de samba, degustações de vinhos, parques para cães, estúdios de tatuagem, manhãs de meditações e pistas de skate.  

ESSES LUGARES QUE MENCIONEI PODEM PARECER CHEIOS DE GENTE, mas nem sempre as coisas são o que parecem.

Sou gerente da livraria Baratos da Ribeiro, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Interagir com os usuários desse espaço não é parte das minhas funções. (Meu trampo é abastecer o lugar com livros, discos e HQs, e tratar da manutenção da casa, no sentido concreto e financeiro.)

Mas eu me empenho em promover interação entre as pessoas que estão lá. E... devo confessar: tá cada vez mais difícil. Porque cada vez mais: os corpos desfilam por ali, mas vazios: as mentes estão em outro lugar. Estão afogadas no insttaggram ou tiquetoque.

(Deixo nos comentários links e flyers pros próximos eventos no sebo: situações que reúnem muita gente que não compra livros e nem LPs, que que gosta de estar entre livros e discos.)

Encerro essa provocação com uma situação real e recente: encontrei um amigo na saída do metrô. Eu tinha um lance pra resolver no Centro, ele e a filha tavam lá com outra missão. Os convidei pra almoçar. Eles me acompanhariam na minha parada, eu os faria companhia depois. Sugeri que prestássemos atenção aos restaurantes pelo caminho, e escolhêssemos um. A filha do meu amigo, de 20 anos, a invés de atentar aos letreiros pelo caminho: manteve os olhos vidrados no celular, caçando dicas de algum influencer sobre restaurantes no Centro do Rio. Ela não viu nem os restaurantes, nem os cafés, nem as lojas de roupa, nem os camelôs, nem o céu, nem o casario centenário, nem a colorida & charmosa fauna humana que habita o Saara.

P.S.: uma prova de que a Baratos, como a maioria das (boas) livrarias, não é apenas um lugar onde se vender livros, é a resposta que recentemente dei quando me perguntaram: “por que você tira o plástico que embala os livros?” (Já que embalados: eu poderia vender mais caro.) Porque acredito que livrarias devam ser locais onde se possa ler os livros, mesmo que não se vá comprá-los.  


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