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Por que não lançar livros em livrarias?

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Surgiu uma moda nos últimos anos: lançar livros em lugares outros que não em livrarias. Acho super razoável a depender do tema do livro. Natural que os livros sobre o Bip Bip ou o Jobi tenham sido lançados nesses bares, um em Copa e o outro no Leblon. Como seria natural um livro sobre a produtora College Rock Party ser lançado numa festa do Renato Jukebox.

SEI DE SITUAÇÕES EM QUE O AUTOR ATÉ QUIS MUITO LANÇAR NUMA LIVRARIA, mas condições adversas não permitiram. Acontece. MAS EU TOMEI UMA DECISÃO: não compro livro a não ser em livrarias.Óbvio que por ser livreiro: sou parte interessadíssima. Mas creio ter bons – e impessoais – motivos para agir assim.

SE TRATA DE ESCOLHER EM QUE CIDADE E BAIRRO QUERO VIVER. Meditava sobe o assunto enquanto pedalava e me lembrei das lojas de conveniência de postos de gasolina com padarias... tem uma na Cardeal Arcoverde, em Copa, mas isso é mais típico da “Barra Profunda”, pra lá do Jardim Oceânico. No meio daqueles condomínios mamutescos e daquelas avenidas monumentais, é nos Postos de Gasolina que muita gente compra pão. Já eu moro em frente à uma padaria – e na esquina tem uma casa de sucos, dobrando ali e uns passos adiante tem uma banca de jornal; à meia quadra de mim tem loja de ferragens, costureira, sorveteria, restaurante e o escambal. Esse canto onde moro é uma cidade “à moda antiga”: onde tudo eu resolvo à pé, me permitindo seguir sem saber dirigir e sem carro. Se fosse obrigado à viver na “Barra Profunda” e pegar um táxi pra comprar pão (ou usar o iFood): preferia voltar pra Taubaté.

Lugar de pão é na padaria. Assim como lugar de livro, pra mim, é na livraria. Eu quero MUITO MAIS DO QUE CONSEGUIR OS OBJETOS QUE DESEJO: QUERO OBTER ESSES OBJETOS EM CASAS DO MEU BAIRRO, conversando com gente que almoça nos mesmos restaurantes onde eu almoço.

QUERO MEU DINHEIRO CIRCULANDO ONDE VIVO E TRABALHO, com os trocados socorrendo os pedintes das ruas por onde ando. Quero um comércio pujante no meu entorno, com letreiros acessos até tarde da noite, tornando as ruas mais seguras pros meus passeios.

ALGUNS PRECISAM DE CINEMAS OU TEATROS, outros de academia ou praia, há ainda aqueles que necessitam de boates ou cachoeiras. JÁ EU NÃO VIVO SEM LIVRARIAS, LOJAS DE DISCOS E CASAS DE SHOWS.

E APESAR DA INTERNET permitir que muitos produtos cheguem aos consumidores sem intermediários...

NÃO ESQUEÇO DE COMO PAULO COELHO ALCANÇOU SEU SUCESSO.É claro que são vários os fatores, mas um deles, importantíssimo, foi a “cooptação” dos livreiros. Comecei no ramo há 25 anos. Todos os livreiros veteranos, na labuta desde os anos 80, tinham imenso carinho pelo Mago. Ele entrava em toda livraria que via pela frente, perguntava por seus livros, se apresentava como autor e batia longos papos com os livreiros. Saía da livraria deixando novos fãs da sua obra, que mesmo nunca tendo lido uma só linha: por considerarem o cara mega simpático, começavam logo a vender o peixe do Paulo Coelho aos seus clientes.

A MERCEARIA SÃO PEDRO, na Vila Madalena em São Paulo, FOI UM PONTO DE TREMENDA EBULIÇÃO LITERÁRIA, mas trata-se de uma exceção. E me parece que acabou atuando como livraria também: os livros ficavam expostos e à venda para além da noite de lançamento.

E ESSE É O PULO DO GATO: a livraria está empenhada em vender o livro todos os dias, enquanto que nesses lançamentos “alternativos”: é tudo ou nada na noite de lançamento.

EU LANCEI UM ÚNICO LIVRO NA VIDA, como organizador, o “Clube da Leitura Vol. 1: Modo de Usar”, em 2009. Vendi 200 exemplares no lançamento em Paraty, mais 200 exemplares no lançamento aqui no Rio de Janeiro. E no dia a dia da Baratos da Ribeiro Livraria: em dois anos vendi mais uns 400 exemplares (a tiragem era de mil, estimo que uns 10% disso tenha sido distribuído aos autores e à imprensa). Me parece um relativo sucesso.

HOJE HÁ EDITORAS ATÉ DE PRESTÍGIO QUE ADOTARAM COMO POLÍTICA NÃO LANÇAR LIVROS EM LIVRARIAS, me parece que quase sempre com a justificativa de que não podem dispor da comissão (tradicionalmente de 40%, esquema estabelecido pela França no século XVIII) cobrada pelas livrarias. Me pergunto se esses editores também boicotam o Uber ou o iFood, que cobram 25% dos motoristas e dos restaurantes. Será que eles fazem questão de usar o Táxi Rio (aplicativo que nada cobra dos taxistas, criado pela prefeitura) ou se telefonam diretamente para os restaurantes...

Finalmente, quero apenas reforçar dois pontos:

1) muitas vezes é o editor quem determina onde lançar o livro, sem que o autor possa palpitar; e

2) há situações em que o autor tem lá seus – bons – motivos para lançar em outro tipo de estabelecimento, notadamente quando seu público está espacialmente localizado e a região não dispõem de uma livraria.

Mas acho que todos concordamos que é uma tristeza essa carência de livrarias... E olha que falo enquanto morador do Rio de Janeiro, que nem tão carente é.


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