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NARRAÇÃO EM OFF nos Quadrinhos: um acerto e um erro

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O maior defeito dos QUADRINHOS de super-heróis que li na minha infância (anos 80) era a narração em off: estupidamente redundante, comumente descrevendo (e adjetivando) o que já estava desenhado.

Frank Miller criou uma nova escola, notória pela descrição de fenômenos fisiológicos (enquanto o desenhista te mostra os golpes, o narrador descreve o impacto dos mesmos nos órgãos internos do herói), que logo me cansou. Aí vieram os ingleses, notadamente o Neil Gaiman, com textos altamente líricos e reflexivos. Lembrando que devemos lembrar do pioneirismo de J. M. DeMatteis com “Moonshadow” (1985).

Achei que Brian Michael Bendis tinha nos livrado do excesso de narração em off, a partir do seu Demolidor (2001-2006, pra mim a melhor fase do personagem). Tanto que Bendis cita como suas maiores influências roteiristas do cinema e não das HQs: David Mamet, Richard Price e Aaron Sorkin - que ele admira exatamente pelos diálogos.

Mas infelizmente o que prevalece hoje é a escola Alan Moore / Neil Gaiman, puxada pruma literatice muito chatonilda.

Peguei pra ler o número 52 da revista VINGADORES, de junho de 2023: de vez em quando leio um número solto, só pra ver como andam meus velhos conhecidos, os super-heróis. (Esse tipo de gibi é como novela, mas como a norte-americana Days Of Your Life, que teve 14 mil episódios exibidos pela NBC entre 1965 e 2022: longuíssima. Depois de certo tempo acompanhando: você se torna capaz de perder muuuuitos episódios e pegar num instante o fio da meada, se quiser dar uma bisbilhotada na história.)

Esse gibi tem 2 histórias bem legais. Mas numa a narração em off funciona bem, noutra a narração é péssima (e eu ignorei na maior parte do tempo). Transcreverei as duas, a título de comparação.

 

Começando com a história que acertou no uso da narração:

O TELHADO MAIS ALTO, escrita por Mark Russel, estrelada pelo Gavião Arqueiro, que é também o narrador. O CONTEXTO: uma entidade cósmica resolver julgar a Humanidade, sob possível pena de extermínio, e para isso escolhe alguns super-heróis como réus.

“O escopo de problemas que podem ser solucionados com um arco e flecha é relativamente pequeno. Mas quando você encontra um... todos os anos se dedicando a uma arma mais antiga do que calças meio que fazem sentido. É no resto do tempo que você se pergunta exatamente que diabo fez com sua vida. E outras perguntam que é melhor ficarem sem respostas. (páginas 1 e 2)

Se você percebe como é boa a sensação de não estar coberto de sangue, então provavelmente tomou algumas decisões ruins na vida. Mas, numa certa idade, você acorda e de repente se toca de que todas as escolhas pra valer que teve na vida... você já fez. E agora: é só um sujeito fazendo aquilo que uma versão mais jovem escolheu fazer. (página 3)

Que dizer: é, beleza, eu pisei na bola. Mas ainda assim... comprada aos Serviço Postal... será possível? Estou realmente perigando perder a loteria cósmica pra uma caixa de Correio? (página 9)

Quer dizer, sendo justo, já ajudei a salvar o mundo um bando de vezes. Mas é assim que funciona? Você faz alguma coisa muito boa de vez em quando e aí pode tirar folga pelo resto da vida? Ou você é quem é todo dia? (página 9)

Seja qual for o resultado desse máster chef existencial... eu precisava saber. (página 10)

Bom, ele não ajudou muito. Mas também, o que significa julgar a raça humana, hein? Tipo, digamos que você queira dar um prêmio pro melhor jacará. Pra quem vai? Pra um que ignora completamente o fato de que é um jacaré? Pra um jacaré santo? Ou pro que é melhor em ser o que um jacaré foi projetado pra ser? (página 13)

Malditos terraços de Nova Iorque. Quando é que todos foram convertidos em jardins? Será que o Fogo Cruzado tem problemas desse tipo? (página 13)

Parece que não. Sortudo. Parece que cheguei bem a tempo de impedir um assassinato. Viu? Isso é um trabalho importante, né? O destino de países está na balança. Embora seja esquisito que tantos assassinatos dependam de quem consegue encontrar o telhado mais alto. (página 14)

Proteção amortecedora revestida de chobham. Mesmo que eu o atinja, pode não ser o suficiente pra atrapalhar o disparo. Melhor passar pro plano B. É por isso que eu faço isso? Porque os problemas que se pode resolver com um arco e flecha costumam ser mais simples? (página 14 e 15)

A vida seria mais fácil se eu fosse uma caixa de Correio. Talvez a {entidade] Celestial estivesse certa. Talvez eu esteja desesperadamente em desvantagem nessa competição. (página 15)

Bom... Fiz o que podia. Eu me curvo à competição superiora. Suponho que é isso. Meu último dia no plano mortal. Pra não falar em Nova Iorque. Mas, pra ser sincero, não me importo em morrer. (página 18)

É não existir que me incomoda. Não consigo deixar de sentir que estou saindo do cinema ainda faltando cinco minutos de filme. Eu me diverti, mas tem algumas perguntas pras quais ainda queria resposta. Tipo... o que eu podia ter feito diferente? O que eu devia ter feito diferente?” (página 19)

Chega então uma carta no apartamento do Clint Barton: é do Celestial, e diz o seguinte:

“Querido Clint: é esquisito eu chama-lo de querido? Não tenho certeza de que exista uma forma apropriada ou educada de anunciar que você foi julgado. E o resultado de meu julgamento foi o seguinte: (página 19)

Estive vigiando de perto. Como esperado, descobri que a sua espécie é egocêntrica e violenta. Vocês condenam a arrogância dos outros que, em si mesmo, chamam de retidão. Agem mesmo sem saber o que fazer. Mal conseguem distinguir o certo do errado, e geralmente nem tentam. Mas sendo justo, essa é uma pergunta capciosa. (página 20)

Porque a verdade é que não existe uma resposta certa. Todas as decisões dependem das necessidades do momento, e existem mais possibilidades a considerar do que átomos no universo. Nossa única esperança é nos tornarmos seres melhores e mais inteligentes toda vez que isso nos é solicitado. E só podemos continuar nos tornando pessoas melhores perguntando isso a nós mesmos. (página 20)

Pode não existir algo como clareza moral, mas isso não significa que não podemos crescer. E você cresceu. O que uma caixa de Correio não consegue fazer, aparentemente. Então meu julgamento é que você passou. Vai viver. Mas nós vamos estar de olho de tempos em tempos, Clint. Então meu conselho é para agir como se alguém estivesse sempre de olho. Até você ser sábio o bastante para agir como se ninguém estivesse.” (página 20)

 

A história com uma narração pé-no-saco é:

ASSALTO AO BAXTER: JULGAMENTO VEZES QUATRO, escrita por David Pepose, estrelada pelo Quarteto Fantástico. O CONTEXTO é o mesmo da história anterior. O narrador é Reed Richards.

“Por toda a história, tempos sem precedentes exigiram soluções extraordinárias e inspiração fantástica. Oppenheimer teve o Bhagavad Gita, Newton teve sua macieira... até Mary Shelley se inspirou nos seus pesadelos mais sombrios. Mas, para mim, sempre que me vejo encarando um problema instransponível... eu penso nela: minha querida Sue. [sua esposa, a Mulher Invisível] E o resto acaba se encaixando.

De certas maneiras, o Celestial pensa como eu... extrapolando forças fundamentais, quantificando cálculos divinos. Mas, se você perguntar a qualquer um qual é o maior poder da Mulher Invisível... é que ela sempre faz as pessoas se sentirem vistas.

Mas hoje eu fico me perguntando... o que eu poderia estar ignorando? A pura magnitude dos desafios do Celestial é imensa... porém, tão única. Aí eu penso na Sue, e a resposta de torna clara. O Celestial não está aqui para testar a nossa força... mas para aprender quem realmente somos.

Se Sue é meu verdadeiro norte, então Bem Grimm [o Coisa] é meu leito rochoso de amizade e lealdade... enquanto Johnny Storm [o Tocha Humana] nos lembra a todos de vivermos a vida de forma gloriosa. Juntos, eles se opuseram aos maiores perigos do universo.

Então, se a minha família... minha família comum e extraordinária... pode ser julgada e considerada insuficiente?  Então, que esperança o resto da Humanidade tem?

Minha mente recua enquanto entretenho hipóteses mais sombrias. Um ataque frontal já terminou em fracasso. Armamentos convencionais dificilmente o atrasariam. A escala de consciência do Celestial é vasta demais para engodos telepáticos. Envenenar a entidade somenta a enlouqueceria, acelerando o nosso fim... enquanto um portão dimensional não significa nada para um ser que pode dobrar o tempo e o espaço.

E, mesmo que a Humanidade conseguisse escapar da Terra de alguma forma sem detecção... para onde poderíamos ir que o Celestial não nos encontrasse?

O que me aterroriza é saber que, enquanto me tranquei para ponderar... existem outros bolando suas próprias idéias arrepiantes e considerando o momento perfeito para atacar. Nem todas as idéias são boas. Algumas são aterrorizantes.... e algumas são mortais.

Porém , sempre que me encontro perdido no desespero... eu penso na Sue. Que inspira valentia em todos que conhece.  Ela é a pessoa mais forte que conheço, a mais destemida. Para o público, suas contribuições muitas vezes são ignoradas. Mas, para aqueles que a conhecem e a ama... ela é a mais poderosa de todos nós. Porque ela é sempre levada aos limites do possível... precisamente porque não conhece o significado da palavra derrota.

Talvez seja aí que vou encontrar minha resposta para o dilema celestial diante de nós. E se este não for um problema de força bruta... mas de pura crença? Acreditar na sua família é o suficiente? E quanto à força do amor e do compromisso? Ou a resposta se encontra dentro do próprio espírito humano? Que, independentemente das circunstâncias, sempre encontra uma maneira de nos erguer... mesmo que no fim, estejamos condenados ao fracasso.

Mas, no fundo do meu coração, eu acredito em Susan Storm. Sinto isso desde o dia em que nos conhecemos.

Existem aqueles que se impressionam com as jornadas de minha família ao desconhecido... mas, se não fosse ela... eu jamais teria chegado às estrelas pra começo de conversa.

Eu eu me pergunto: no que os Celestiais acreditam? Eles acreditam em guerra... em criação... e o mais importante: em evolução. A lógica... por mais alienígena e opaca... me atinge com uma clareza súbita. Se os Celestiais quisessem nos destruir de verdade: já teriam feito isso. O que significa que... no fim, eles querem a nossa vitória.

A única pergunta é: podemos deduzir as regras do jogo depressa o bastante para prevalecermos?

Sempre que me deparo com um problema intransponível: penso na minha querida Sue. Perto do Juízo Final... rogo para que inspiração seja suficiente.”

 

VALE À PENA EXPLICAR que a primeira história, do Gavião Arqueiro, tem poucas (e excelentes) cenas de ação, enquanto a segunda, do Quarteto Fantástica, é toda ela uma longa sequência de ação (em que uma inimiga invade o quartel general da equipe, lacrando o edifício, enquanto o Tocha Humana está do lado de fora, o Coisa está soterrado e o Reed está incomunicável, dentro do seu cofre-bunker de meditação, restando Sue Richards como única resistência ao ataque).

Basicamente: na segunda história os pensamentos do Senhor Fantástico atrapalham o fluxo narrativo, sabotando inclusive os momentos de potencial tensão e suspense. Além disso: grande parte do monólogo de Reed Richards apenas descreve o contexto da história, contexto esse que dificilmente é desconhecido do leitor, desde antes dele abrir o gibi pra ler.

E at last but not least: alguém precisa ser lembrando do quanto o Reed ama a esposa, o cunhado ou seu melhor amigo????!

P.S.: maneiro como a Marvel trouxe para os quadrinhos uma questão do MUNDO REAL: que é o ARREBATAMENTO BÍBLICO. Não que o acontecimento previsto no Apocalipse seja real: mas a quantidade de pessoas que hoje acreditam piamente nisso é imensa, e isso tem a ver com o entusiástico apoio dos evangélicos à Israel, no contexto do ataque à Gaza.



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