Haverá o momento em que cada pessoa escolherá usar ou não a máscara. Muitas cidades já estão passando por esse momento.
(A prefeitura do Rio de Janeiro é clara: estabelecimentos privados podem exigir o uso da máscara, se assim preferirem. Mas a maioria dos estabelecimentos prefere não se indispor com os clientes.)
Mas há esse momento, na passagem da Pandemia para a Não-Pandemia, em que uma turma abandona a máscara, enquanto outra turma continua usando máscara. Cabe aos epidemiologistas e demais especialistas médicos discutirem o (não)uso da máscara em termos de saúde pública. Como sou leigo, só posso discorrer sobre outros aspectos da máscara. Esteticamente falando? Muita gente fica mais bonita de máscara. A máscara valoriza os olhos e esconde queixos pouco aprumados.
Mas eu queria levantar a questão da ETIQUETA.
Apesar da “etiqueta” andar em baixa, e já faz tempo. O excesso de firulas aristocráticas foi guilhotinada pela Revolução Francesa, e a realeza hoje mais popular - a inglesa - é muitíssimo mais descontraída. As escolas de etiqueta onde a burguesia preparava suas filhas para o Baile de Debutantes já não existem, porque afinal as meninas preferem um cruzeiro mucho loco de presente de 15 anos. Mesmo nos ambientes corporativos: nas start-ups do Vale do Silício os executivos andam de skate pelos corredores e uma mina com camiseta da Lady Gaga masca chiclete na reunião da diretoria.
Como soa mal a palavra “etiqueta”! Todos querem ficar “à vontade”.
Mas quando repetem o mantra “Gentileza gera gentileza”: é de pequenos sacríficos rotineiros em prol do conforto alheio que se está falando. E esse código de convivência cabe nessa única palavra: etiqueta.
É um exagero exigir que advogados usem paletó e gravata numa audiência? Supõe-se que advogados possam pagar por ternos, e que os ternos contribuam para a circunspecção e solenidade exigida num tribunal. É exagero o restaurante La Mole impedir a entrada em trajes de banho? Não faltam bares, especialmente na orla, mais informais, onde a turma fica sem camisa e com o cachorro no colo... ninguém é obrigado a ir ao La Mole... É exagero repartições públicas impedirem o acesso de homens trajando bermuda ou shorts? Depende da repartição, né? O INSS, que atende muita gente mais pobre, provavelmente não liga pro sujeito estar de chinelo.
As liturgias religiosas são uma espécie de etiqueta. A Páscoa se aproxima: na sexta-feira santa os católicos não comem carne vermelha. Nas sinagogas e nos shabats é habito que os homens cubram a cabeça. Eu já fui a um casamento evangélico onde não se serviu uma gota de bebida alcóolica. Muçulmanos deixam os calçados do lado de fora dos locais onde praticam sua religião. Você se recusaria a tirar o sapato ao entrar numa mesquita? Você se recusaria a vestir um quipá num velório judaico? Você levaria uma garrafa de uísque escondida prum batismo presbiteriano? Você pediria pra fritar um bife na casa dos anfitriões, se descobrisse que é bacalhau que servirão no almoço da Sexta-feira Santa? Nada disso é crime. Talvez ninguém brigue contigo. Mas são atitudes grosseiras, não acha?
E é comum que as pessoas adotem regras particulares em suas casas. Tem quem peça pras visitas tirarem o sapato. Na casa de meus pais não era permitido fumar em canto algum: meu avô tinha que ir pra calçada pra pitar. Em outras casas pode-se fumar na sala, noutras só na varanda ou junto à janela, na área de serviço. Alguns cães de estimação dormem na cama dos donos, outros cães são confinados aos quintais. Há etiquetas especiais para situações especiais: tem festas onde você pode chegar trazendo mais gente à tiracolo, em outras festas você sente que precisa da autorização prévia do anfitrião para levar acompanhantes.
Alguém convidado para jantar na casa de amigos veganos: se for educado elogiará a comida, por mais falta que sinta dum bicho morto no cardápio. Numa igreja, assistindo um casamento: a pessoa “bem educada” levantará várias vezes, mesmo alheia à liturgia do rito e sem entender porque está se levantando: simplesmente porque todo mundo está se levantando. Em Roma: faça como os romanos.
Então FALEMOS DAS MÁSCARAS:
Estamos vivendo esse momento em que alguns usam, outros não. Há ambientes em que a maioria está com máscara, em outros a maioria está sem máscara. A oferta é imensa: não faltam lugares para ambos os “estilos”: mascarados e desmascarados.
Na minha livraria a equipe, eu e os funcionários: trabalhamos de máscara. E a imensa maioria dos frequentadores usa máscara. Percebo que vários clientes assíduos botam a máscara apenas quando entram no sebo. Provavelmente já usam pouco o adereço. Dentre os clientes ocasionais: a maioria para e observa, antes de entrar; repara que a maioria está de máscara, repara nos cartazes sugerindo o uso, e então veste sua máscara. Nós, que lá trabalhamos, não damos mais pitaco. Mas deixei os funcionários à vontade: quem fica desconfortável em atender desmascarados pode “fugir” do cliente, pode falar o mínimo com o cliente. Jogar conversa fora é opcional: não faz parte das funções do cargo.
Outro dia um amigo me visitou na loja. Por ser amigo (e muito íntimo): eu pedi que usasse a máscara. Ele preferiu não usar. Apliquei a regra que eu mesmo criei: fugi do amigo. O argumento que ele usou foi a SAÚDE MENTAL. Dele, claro.
Mas e a saúde mental dos outros? Quem continua usando máscara: ainda tem medo e ainda fica desconfortável no meio dos desmascarados. Imagine que a pessoa chega num lugar e vê 10 pessoas. Dessas 10 pessoas: 8 estão de máscara e 2 não estão. Isso significa que naquele ambiente: 80% das pessoas ficam “mentalmente mais saudáveis” com as máscaras cobrindo bocas e narizes, e apenas 20% “ganham saúde mental” com nariz e boca descobertos.
O que faz alguém constranger 8 pessoas, quando seu gesto só agradará a 2 outros caboclos? Em Roma: faça como os romanos. Na sinagoga: use o quipá. Na casa dos amigos: tire os sapatos se te pedirem. Não vá vestido à praia de nudismo, não fique nu na praia de Ipanema.
Ninguém te obriga a ir à Roma, à Sinagoga ou à praia de nudismo. Do mesmo modo: existem dezenas de livrarias no Rio de Janeiro. Escolha a que mais lhe convém.
O papo já foi sobre saúde pública. Foi: mas a Humanidade deu infinitas demonstrações de que está se lixando pro público, que é cada um por si, ou pela sua “saúde mental”. Então que seja ao menos uma questão de etiqueta.










