Quantcast
Channel: porque de nada sirve escaparse de uno mismo
Viewing all articles
Browse latest Browse all 78

Article 0

$
0
0


 

Haverá o momento em que cada pessoa escolherá usar ou não a máscara. Muitas cidades já estão passando por esse momento.

(A prefeitura do Rio de Janeiro é clara: estabelecimentos privados podem exigir o uso da máscara, se assim preferirem. Mas a maioria dos estabelecimentos prefere não se indispor com os clientes.)

Mas há esse momento, na passagem da Pandemia para a Não-Pandemia, em que uma turma abandona a máscara, enquanto outra turma continua usando máscara. Cabe aos epidemiologistas e demais especialistas médicos discutirem o (não)uso da máscara em termos de saúde pública. Como sou leigo, só posso discorrer sobre outros aspectos da máscara. Esteticamente falando? Muita gente fica mais bonita de máscara. A máscara valoriza os olhos e esconde queixos pouco aprumados.

Mas eu queria levantar a questão da ETIQUETA.   

Apesar da “etiqueta” andar em baixa, e já faz tempo. O excesso de firulas aristocráticas foi guilhotinada pela Revolução Francesa, e a realeza hoje mais popular - a inglesa - é muitíssimo mais descontraída. As escolas de etiqueta onde a burguesia preparava suas filhas para o Baile de Debutantes já não existem, porque afinal as meninas preferem um cruzeiro mucho loco de presente de 15 anos. Mesmo nos ambientes corporativos: nas start-ups do Vale do Silício os executivos andam de skate pelos corredores e uma mina com camiseta da Lady Gaga masca chiclete na reunião da diretoria.

Como soa mal a palavra “etiqueta”! Todos querem ficar “à vontade”.

Mas quando repetem o mantra “Gentileza gera gentileza”: é de pequenos sacríficos rotineiros em prol do conforto alheio que se está falando. E esse código de convivência cabe nessa única palavra: etiqueta.

É um exagero exigir que advogados usem paletó e gravata numa audiência? Supõe-se que advogados possam pagar por ternos, e que os ternos contribuam para a circunspecção e solenidade exigida num tribunal. É exagero o restaurante La Mole impedir a entrada em trajes de banho? Não faltam bares, especialmente na orla, mais informais, onde a turma fica sem camisa e com o cachorro no colo... ninguém é obrigado a ir ao La Mole... É exagero repartições públicas impedirem o acesso de homens trajando bermuda ou shorts? Depende da repartição, né? O INSS, que atende muita gente mais pobre, provavelmente não liga pro sujeito estar de chinelo.

As liturgias religiosas são uma espécie de etiqueta. A Páscoa se aproxima: na sexta-feira santa os católicos não comem carne vermelha. Nas sinagogas e nos shabats é habito que os homens cubram a cabeça. Eu já fui a um casamento evangélico onde não se serviu uma gota de bebida alcóolica. Muçulmanos deixam os calçados do lado de fora dos locais onde praticam sua religião. Você se recusaria a tirar o sapato ao entrar numa mesquita? Você se recusaria a vestir um quipá num velório judaico? Você levaria uma garrafa de uísque escondida prum batismo presbiteriano? Você pediria pra fritar um bife na casa dos anfitriões, se descobrisse que é bacalhau que servirão no almoço da Sexta-feira Santa? Nada disso é crime. Talvez ninguém brigue contigo. Mas são atitudes grosseiras, não acha?

E é comum que as pessoas adotem regras particulares em suas casas. Tem quem peça pras visitas tirarem o sapato. Na casa de meus pais não era permitido fumar em canto algum: meu avô tinha que ir pra calçada pra pitar. Em outras casas pode-se fumar na sala, noutras só na varanda ou junto à janela, na área de serviço. Alguns cães de estimação dormem na cama dos donos, outros cães são confinados aos quintais. Há etiquetas especiais para situações especiais: tem festas onde você pode chegar trazendo mais gente à tiracolo, em outras festas você sente que precisa da autorização prévia do anfitrião para levar acompanhantes.

Alguém convidado para jantar na casa de amigos veganos: se for educado elogiará a comida, por mais falta que sinta dum bicho morto no cardápio. Numa igreja, assistindo um casamento: a pessoa “bem educada” levantará várias vezes, mesmo alheia à liturgia do rito e sem entender porque está se levantando: simplesmente porque todo mundo está se levantando. Em Roma: faça como os romanos.

Então FALEMOS DAS MÁSCARAS:

Estamos vivendo esse momento em que alguns usam, outros não. Há ambientes em que a maioria está com máscara, em outros a maioria está sem máscara. A oferta é imensa: não faltam lugares para ambos os “estilos”: mascarados e desmascarados.

Na minha livraria a equipe, eu e os funcionários: trabalhamos de máscara. E a imensa maioria dos frequentadores usa máscara. Percebo que vários clientes assíduos botam a máscara apenas quando entram no sebo. Provavelmente já usam pouco o adereço. Dentre os clientes ocasionais: a maioria para e observa, antes de entrar; repara que a maioria está de máscara, repara nos cartazes sugerindo o uso, e então veste sua máscara. Nós, que lá trabalhamos, não damos mais pitaco. Mas deixei os funcionários à vontade: quem fica desconfortável em atender desmascarados pode “fugir” do cliente, pode falar o mínimo com o cliente. Jogar conversa fora é opcional: não faz parte das funções do cargo.

Outro dia um amigo me visitou na loja. Por ser amigo (e muito íntimo): eu pedi que usasse a máscara. Ele preferiu não usar. Apliquei a regra que eu mesmo criei: fugi do amigo. O argumento que ele usou foi a SAÚDE MENTAL. Dele, claro.

Mas e a saúde mental dos outros? Quem continua usando máscara: ainda tem medo e ainda fica desconfortável no meio dos desmascarados. Imagine que a pessoa chega num lugar e vê 10 pessoas. Dessas 10 pessoas: 8 estão de máscara e 2 não estão. Isso significa que naquele ambiente: 80% das pessoas ficam “mentalmente mais saudáveis” com as máscaras cobrindo bocas e narizes, e apenas 20% “ganham saúde mental” com nariz e boca descobertos.

O que faz alguém constranger 8 pessoas, quando seu gesto só agradará a 2 outros caboclos? Em Roma: faça como os romanos. Na sinagoga: use o quipá. Na casa dos amigos: tire os sapatos se te pedirem. Não vá vestido à praia de nudismo, não fique nu na praia de Ipanema.

Ninguém te obriga a ir à Roma, à Sinagoga ou à praia de nudismo. Do mesmo modo: existem dezenas de livrarias no Rio de Janeiro. Escolha a que mais lhe convém.

O papo já foi sobre saúde pública. Foi: mas a Humanidade deu infinitas demonstrações de que está se lixando pro público, que é cada um por si, ou pela sua “saúde mental”. Então que seja ao menos uma questão de etiqueta.


Viewing all articles
Browse latest Browse all 78

Latest Images

Trending Articles



Latest Images