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Resenha: “Dicionário Maquiavélico”, Mauk & Os Cadillacs Malditos (independente)

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Maurício Garcia está entre os músicos mais importantes da cena roqueira carioca, e isso não tem nada a ver com discos de ouro ou platina, mas com shows incendiários, em lugares nem sempre confortáveis, que inspiram a molecada a comprarem uma guitarra e formarem sua própria banda. Ou a fazerem uma tatuagem no dia seguinte e a cultivarem o topete.

“Dicionário Maquiavélico”, assinado por Mauk & Os Cadillacs Malditos,acaba de sair do forno e talvez seja o disco mais pessoal desta lenda do underground carioca. Mauk, como é mais conhecido, já esteve à frente de várias bandas, defendendo suas próprias composições, e já tocou em outras tantas. Tem feito isso há quase 30 anos e quem o vê em ação, no palco, ou simplesmente fazendo air guitar na pista de dança do Saloon 79, ou falando com entusiasmo sobre os discos que está ouvindo com o rapaziada, madrugada adentro, jura que ele acabou o colégio ontem e que sua lambreta está estacionada logo na esquina.


Não é apenas o figurino e cabeleira de Mauk que homenageiam as raízes do rock´n´roll. Trata-se de um compositor comprometido com o que há de mais fundamental nessa tradição musical: a primazia da guitarra elétrica, o clareza e objetividade das letras, a energia explosiva das interpretações, os arranjos sem firulas ou virtuosismos excessivos. Conforme ditava a cartilha da Motown (porque afinal rock e soul estavam conjugadas, em fins dos 50s e início dos 60s, no que se chamava de “música jovem”), 3 minutos é o suficiente para que ele apresente uma grande canção – e muitas vezes o recado está bem dado em 2 minutos e meio. Mas que ninguém se engane com a simplicidade: Mauk é um carpinteiro dos riffs de guitarra e um arranjador sagaz, com um faro especial na hora de recrutar seus escudeiros. E não há nada mais difícil do que cunhar uma canção pop, daquelas que você não se cansa de assoviar.

Há uns meses estávamos tomando uma cerveja no Porto Pirata: eu, Mauk e Duncan Reid– o inglês fazia escala na Praça da Bandeira, a caminho de Montevidéo, em turnê de lançamento de seu disco “Little big head”. A certo ponto da conversa, o ex-baixista da banda punk The Boys confessou que compõe no violão. Segundo ele, uma canção para ser realmente boa tem que soar bem mesmo quando reduzida apenas ao violão.


A canção que batiza o álbum, “Dicionário Maquiavélico”, é uma dessas pérolas que já nascem com jeitão de clássico de rodinha de violão. O argentino Horacio Guzman (Superpuestos Hijos de Lopez), faz uma participação especial, dedilhando a guitarra, burilando riffs, enquanto Mauk embala no violão uma clássica volta-por-cima-depois-do-coração-partido: “Agora deixei-me chegar ao ponto / com as bochechas vermelhas  do vento / Você me ensinou como é ter no coração uma pedra de gelo / Queimando no inferno, olhando pro céu / aprendi a lidar com a dor / Não é difícil suportar, somos milhões / e posso ter qualquer pessoa, menos você”. O disco foi produzido pelo também argentino Seu Cris, do estúdio La Cueva. Em tempo: está no fim da gestação o disco do Seu Cris & Dom Horário, consolidando essa ponte Rio-Buenos Aires. 

Como quase todo lançamento independente, inclusive da grana - sempre escassa -, esse disco não nasce com clipes superproduzidos a reboque. Por enquanto, o que achei no YouTube foram alguns registros antigos, mas que servem pra dar uma idéia... Mas mesmo esses registros o browser do wordpress não consegue localizar! Enfim.... vocês terão que se contentar com as minhas tentativas de traduzir sons em palavras!


Na sequência vem uma das minhas canções prediletas do álbum: “Problemas com a morte”. O trompete do Pedro Selector, emprestado da banda de B Negão, faz uma belíssima cama para uma das canções mais introspectivas do cardápio. Uma pitada levemente mariachi, que remete ao alternative country de bandas como Drive-By Truckers e Calexico, mas que remonta a Los Lobos e até ao Richie Valens.  Um dos melhores momentos de Mauk como crooner, seu refrão se repete várias vezes na coda, cada vez com menos empostação e justamente por isso me atingindo com mais força: “a morte me incomoda, a morte me incomoda, a morte me incomoda...” Comovente, sugere a paisagens da “América profunda”, um Road movie com trilha do Ry Cooder. Ou uma birosca freqüentada pelos roqueiros de uma cidade do interior, como Taubaté, de onde eu vim. Ou de São Carlos, no interior de São Paulo – onde aliás está o QG do selo Wildstones Records, que lança nos próximos dias a coletânea Weirdo Fervo #1 em LP, que traz um outtake das sessões de “Dicionário Maquiavélico”: “sábado á noite, domingo de manhã”.


A pergunta que não quer calar é: por que Mauk não gravou essas canções com o Big Trep, banda que ele fundou em 1986 e continua até hoje no batente?

Pressionemos o play em “Tão cego”:  o piano de Sérgio Pavanelli e o trompete do Pedrão fraseando com elegância, enquanto Mauk, na guitarra, pontua essa quase balada – embalada por uma linha de baixo quase chacoalhante. Big Trep, ou a Grande Trepada (o apelido acabou vencendo o nome oficial), nasceu quinteto mas é um trio há muitos anos, e faz rockabilly e psychobilly, O Cadillacs Malditos permite ao Mauk explorar outras referências. O Brian Setzer Orchestra é a das mais óbvias, mas a bagagem musical de Mauk é muito mais ampla. Uma de suas paixões, por exemplo, é Bruce Springsteen; um artista que soube conjugar, como poucos, a ferocidade do rock garageiro sessentista com a herança do soul e do country, alternando discos onde o violão está praticamente sozinho e outros com uma dúzia de instrumentos – eram 13 pessoas na banda, quando passou pelo Brasil no ano passado!

Em paralelo à Big Trep, Mauk teve muitas outras aventuras. (E para mostrar o quanto é difícil enquadrar músicos num ou noutro rótulo, vale dizer que o Skunk, fundador do Planet Hemp, chegou a tocar numa formação embrionária da Grande Trepada!) Mauk tocou com Os Esquizóides, Ricardo & Os Caras Que Não Tem Amigos, Lunik 9 e Manguaça. Atualmente é guitarrista também da excelente Oort Clouds, banda fundada por Francisco Kraus, ex-Second Come.  Estamos falando de quem cresceu durante a explosão do punk e new wave no Brasil. Mauk dividiu o palco com os Kães Vadius, S.A.R., K-Billy’s e os Garotos Podres, em 1987. Esteve no Cais, Garage, Espaço Retrô, Circo Voador e Madame Satã. Participou do “Boca Livre”, programa de televisão do Kid Vinil, junto com Little Quail & The Mad Birds, em 1989.


Dicionário Maquiavélico abre com “Fantoche”, combinação de 2 riffs nervosos e memoráveis, somados à uma linha de baixo sinuosa e um tanto soturna, impulsionadas por uma bateria acelerada e quase marcial - Robson “Vintage” Riva é dos batuqueiros mais escolados do Rio, e está à vontade como baterista dos Cadillacs. Uma abertura pé-na-porta, que remete à outras bandas atuais-mas-que-não-tentam-ser-moderninhas (como a australiana Deep Sea Arcade, que infelizmente não faz por aqui o mesmo sucesso que seus conterrâneos do Tame Impala), mas também a uns 10 anos atrás, quando Strokes e Artic Monkeys renovaram o interesse pelo pós-punk do Gang Of Four. Para chegarmos finalmente à fonte: o punk (ou o pub-rock) mais melódico dos Stranglers, Eddie & The Hod Rods, Tom Robinson Band ou Damned.


Já em “O último dia” encontramos várias camadas sobrepostas de guitarra, entre notas sustentadas e uivos rasgados – ecos de Pixies e Husker Dü? A bateria tribal me faz lembrar de grandes bandas do underground oitentista, como Escola de Escândalo, Smack, Kafka e o Finis Africae em seus primeiros registros. Chutaria que essa canção dói composta depois de algum ensaio do Oort Clouds, ou na época em que Mauk estava lapidando sua contribuição para o tributo ao Second Come – lançado recentemente pela Midsummer Madness. Já a temática road-movie da letra remete ao “Nebraska” um dos discos mais sombrios de Bruce Springsteen.

Aliás, eu talvez daria outro nome ao disco: “Morte, desencontros e fugas”, temas que se repetem ao longo dos 33 minutos desse enxuto disco. (Ah, se todos os artistas hoje fossem tão sucintos quanto Mauk & Os Cadillacs Malditos!)

Na faixa “Amargo do coração” temos o luxuoso órgão hammond de Sérgio Pavanelli, evocando o rock de garagem dos anos 60 – Seeds, Standells, Sonics etc– e principalmente a sua reinvenção oitentista - The Three O´Clock, The Godfathers ou Dukes Of Strathosphere. Mas a letra sobre um amor desencontrado e cheio de tesão, cantado em tom de ressentimento, tem mais a ver com a fúria dos paulistas dos Haxixins. “No olho do furacão” é outra canção furiosa, mas o poeta agora já superou suas agruras amorosas, e parece estar comentando o Jornal Nacional, ou as contas que se acumulam na caixa de Correio: “Tudo a sua volta está a rodar / se fazem presente o caos e a bonança / você se encontra no olho do furacão / você se meteu numa baita confusão / As horas, os dias, semanas e meses / tudo passa e você ainda aí / sentado esperando o fim do mundo / vendo tudo ruir”. Brilha aqui o baixo de Davi Duarte, o terça parte dos Cadillacs.


Os fãs do The Jam, em especial quem gosta da fase final (o álbum “the gift”) vai subir pelas paredes com a dobradinha “Nos trilhos da montanha” e “Entretenimento e sombra”.A última é um quadro impressionista sobre um dia quente de verão no centro do Rio de Janeiro. O devaneio de um office-boy ansioso pela sexta-feira, quando poderá extravazar suas frustrações num show do Garage. Lembranças da juventude? Mauk tem a energia de um garoto de 15 anos, mas já tem um filho dessa idade. A maturidade se evidencia pela harmônica convivência entre tradição e inovação, pelas letras caprichadas, que versam com inventividade sobre sentimentos e situações que todos conhecemos bem, e pelos arranjos refinados-mas-sem-complicações. Uma proeza de quem, como o vinho, fica melhor à medida que envelhece: “under the influence” do Mike Ness, “Fast man, raider man” do Frank Black e “Ball-hog or tugboat” do Mike Watt são outros exemplos.

“Dicionário Maquiavélico” é, de certa forma, um álbum confessional, de quem já está calejado pela vida. Mas é um álbum de rock´n´roll tradicional, e como tal é uma celebração, e não um lamento. Quando termina o humor do poeta está em curva ascendente, em direção ao sol: “Cartas com a solidão” soa um balanço positivo do calvário underground. “ (Um dos EPs lançados pela Big Trep tinha como chamada a celebração dos “25 anos de anonimato”. Essa estrada não é para os fracos!) Diz assim:  ”Tenho a solidão pra me alegrar / E o que meus olhos vêem a frente / me faz acelerar / Solidão: aperte o passo se quiser me acompanhar”. O trompete contribui para lavar a alma do poeta, varrendo as mágoas para debaixo do tapete. E Mauk sussurra: “Deixa pra lá...”.

Tanto que na derradeira faixa Mauk reencontra o rockabilly. E Eduardo Garcia, do Big Trep, traz seu banjo para uma canção de beira de estrada – ou de marujo?  Uma canção que poderia estar no repertório do Canastra ou do Uisqueletos Estravaganza. A disputa pelo coração da beldade é metaforicamente ilustrada por um duelo ao pôr do sol, num clima faroeste-tarantinesco.

Afinal, o Rock´n´roll é uma fantasia.
E existem poucos contadores de história como Maurício Garcia e seus Cadillacs Malditos.

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ALIÁS...
CURTO CIRCUITO é um esforço conjunto das lojas Satisfaction, Baratos da Ribeiro, Berinjela e Sempre Música.

Uma série de festas, com ingressos distribuídos exclusivamente antecipadamente neste circuito.

No Bar do B, em Laranjeiras (no Mercadinho São José, pertinho do Largo do Machado), com produção executiva da COLLEGE ROCK PARTY.

A primeira edição acontece no dia 26 de setembro de 2014:


#1: HUNGRY HEARTS: UM TRIBUTO AO BRUCE SPRINGSTEEN & THE E STREET BAND

Cortesia da Baratos da Ribeiro, que dá o pontapé inicial no projeto.

eu vou discotecar ao lado do Cláudio Borges, da loja HEADBANGER (Tijuca), outro doido pelo som do Patrão. Vamos tocar rock´n´roll "de raiz", na falta de melhor definição - rock de garagem + soul + country rock + levadas bluesy, tudo bem ianque.

E Maurício Garcia + Robson Riva unirão forças ao Pedro Branco + Pedro Jack (da banda White) para um show só com versões para Bruce:

MAUK & OS CADILLACS MALDITOS + PEDRO WHITE




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