A ERA DO DISCO:
O LP não foi apenas um suporte, mas uma forma artística
Por Lorenzo Mammi, prestigiado professor da USP
Uma interessante resenha foi publicado no blog “História Cultural” da Gazeta do Povo, assinada por André Egg:
E aqui temos uma interessante entrevista de Lorenzo Mammi feita por Álvaro Machado:
(FRAGMENTOS – o artigo na íntegra pode ser lido na edição 89 da Revista Piauí, de fevereiro de 2014)
O disco extraiu desse conjunto confuso de sensações e acontecimentos apenas o som, e o colocou num objeto que podia ser levado para casa e escutado à vontade, com qualquer roupa, em qualquer atitude. É um duplo isolamento: do som, em relação à performance; do ouvinte, em relação ao rito social da escuta. O disco inaugura a escuta solitária, no recanto do próprio quarto – análogo, nisso também, ao códice em relação ao rolo [o autor inicia o artigo debatendo transformação dos hábitos de leitura ao longo da história.] No entanto, a escuta de um disco nunca será tão solitária como a leitura de um livro: o disco faz barulho, e esse barulho nos envolve, mesmo que não seja ouvido mais ninguém. O livro se dirige à mente; a música precisa passar pelo ouvido, envolve o corpo. Pelo corpo, o som do disco remete a um espaço comum – da festa, do rito, da marcha. Há uma sociabilidade na música que o disco não abole. Ele apenas a comprime, a torna portátil, permite que seja fruída sem a presença de alguém.
(...) Com a repetição mecânica que o disco consente, o aspecto cíclico passa a dominar. A volta da capo já não é apenas um recurso interno da composição, e sim a característica fundamental da audição: o disco é feito para se ouvir de novo.
(...) A duração limitada dos primeiros discos teve, a meu ver, duas conseqüências: a primeira é o predomínio do gênero canção. Três minutos é um tempo muito curto para desenvolver uma estrutura suficientemente rica no campo da música instrumental, mas não para estabelecer uma relação satisfatória entre texto e melodia. Certamente, foram as exigências de gravação que impuseram o padrão de primeira parte, segunda parte e da capo sobre todas as outras formas de canção, mas essa já era a forma mais comum do Lied, da ária de ópera e de muita tradição folclórica. A maioria dos Lieder de Schubert e de Schumann durava mais ou menos três minutos, e era baseada no princípio de que a linha melódica deveria se adequar perfeitamente ao sentido poético e não poderia ser desenvolvida muito além dele, sob pena de perder a correspondência com o texto. Nesse sentido, Schubert não trabalhava de forma muito diferente de Paul McCartney ou Chico Buarque – para todos os outros gêneros musicais, as diferenças entre música erudita e música popular são bem mais marcantes. Enfim, de todos os formatos tradicionais, a canção romântica é a que mais facilmente podia se adequar às exigências do novo meio. A ópera, gênero então mais popular, também foi segmentado em trechos curtos, na prática canções, e nessa veste determinou o surgimento do primeiro grande star do disco, Enrico Caruso. Por outro lado, talvez não seja por acaso que um dos maiores instrumentistas de jazz dessa época, Louis Armstrong, tenha se tornado mais popular como cantor do que como trompetista. Houve um “século da canção” (para retomar o título de um livro de Luiz Tatit) porque houve um século do disco.
(...) Para o ouvinte acostumado às formas tradicionais de socialização musical, o rádio deveria representar uma novidade menos radical, mais próxima ao evento musical oitocentista: transmitia um acontecimento em ato, ainda que a distância.
(...) Tudo ocorria como se o rádio unificasse as casas: na transmissão radiofônica, sempre há alguém do outro lado do aparelho (desse ponto de vista, o rádio é um ponto médio entre o disco e o telefone), e outros do mesmo lado, diante de outros aparelhos. Dos três aspectos fundamentais do disco – repetição, limite de duração, isolamento -, o rádio tornava impossível o primeiro, eliminava o segundo e relativizava o último. Funcionou como uma espécie de câmara de compensação, filtrando os hábitos musicais do século XIX para a escuta do século XX. Para que o disco alcançasse plena autonomia como forma de expressão, no entanto, era necessário mais um passo.
Os primeiros discos de longa duração, em vinil, forma lançados nos Estados Unidos em 1948: mais de vinte minutos de cada lado, suficientes para uma sinfonia média do século XVIII. Até nas grandes obras românticas, raramente um único movimento supera essa extensão. Quanto á música popular, a vantagem não foi apenas a possibilidade de desenvolver composições mais complexas: mesmo respeitando a duração já tradicional de 3 ou 4 minutos para cada peça, agora era possível montar as faixas numa sequência pré-estabelecida, segundo escolhas refletidas.
(...) Mas não foi apenas o indiscutível avanço técnico que fez do disco em vinil o agente de mudanças revolucionárias: foi sua associação com a nascente sociedade de consumo. A posição de cada indivíduo num contexto social passa a ser determinada pela posse de certos objetos. Nenhum deles era tão poderoso quanto o disco para encarnar formas específicas de sociabilidade, porque os discos já eram, como vimos, sociabilidade objetivada.As gerações que cresceram nas décadas de 50, 60 e 70 (a era de ouro dos LPs) basearam suas escolhas existenciais nos discos. Não apreciavam jazz, pop, folk ou rock: ERAM jazz, pop, folk ou rock. As estrelas da música popular tinham autoridade de poeta, carisma de líderes revolucionários e charme de atores de Hollywood.
Nunca, talvez, desde a época de Beethoven, a música contara tanto. Os enormes lucros que as empresas alcançaram permitiram gravações sempre mais sofisticadas, sessões mais prolongadas e boa dose de experimentação: num mercado em transformação muito rápida, era melhor arriscar um fracasso lançando um disco muito ousado do que ficar para trás. Capa, encarte, textos de acompanhamento, estratégia de lançamento, roupa e penteado dos músicos: tudo passou a ser relevante.
(...) Embora não estivesse entre os escopos primários da indústria fonográfica, a música erudita contemporânea também se beneficiou dos enormes avanços nas técnicas de gravação. (...) A passagem de uma cultura musical centrada no concerto para uma centrada na gravação permitia misturar fontes acústicas e eletrônicas; criar, pelos artifícios da superposição, conjuntos improváveis, às vezes monumentais, que seria muito difícil ou excessivamente caro reunir fisicamente; e executar passagens árduas e insólitas com uma precisão quase impossível ao vivo.
Foi nessa época e por esses meios, muito mais do que pelas vanguardas do começo do século XX, que a música contemporânea alcançou sua plena autonomia em relação á tradição clássico-romântica, quanto a recursos, formas e modalidades de escuta. Foi nessa época, provavelmente, a melhor música erudita do século. Mas é dessa época também o melhor jazz, do bepop ao free; quase todo o rock relevante, de Elvis aos Clash; a bossa nova e o auge da MPB; Janis Joplin e Maria Callas; a melhor Ella Fitzgerald e o melhor Frank Sinatra. E, num lugar que é só deles, são dessa época os Beatles.
O momento em que os Beatles decidira, no verão de 1966, abandonar as apresentações em público para se tornar uma banda de estúdio marca o ápice da era do disco.
(...) Há certa incontinência nesse ir sempre mais além, lambuzar-se de sons, sobrepor imagem a imagem, e ao mesmo tempo comprimir-se num espaço apertado, constantemente ombro a ombro co dezenas de outros (figuras ou sons). Como se o disco fosse um universo de relações massificadas, porém excepcionais, um mundo introjetado ou uma interioridade em erupção. De fato, massificação e singularidade se tornam nele princípios conciliáveis. Os movimentos sociais da década de 60 não foram anticonsumistas, muito pelo contrário: identificaram-se, sob muitos aspectos, com a posse e o uso de objetos específicos – roupas, discos, cartazes, drogas. O consumismo daquela época foi capitalista no sistema, mas anticapitalista no desejo. Ilimitado e inesgotável, portanto utópico. Nesse sentido, o LP em geral, e Sgt Pepper´s em especial, foi a expressão mais plena da dialética interna à sociedade de consumo. A obra prima dos Beatles não foi apenas o disco dos discos. Foi a mercadoria no auge do seu esplendor, no mais alto grau de reflexão e autoconsciência.
(...) Há ainda um outro fenômeno, bastante curioso: o revival, por parte de um setor minoritário, mas culturalmente consistente da música popular, da gravação em vinil. Em si, o meio é claramente obsoleto, incômodo e um tanto caro em relação ao que a tecnologia atual coloca à disposição. Pode ser apenas uma moda passageira. Mas talvez essa retomada se justifique pela força de um prestígio e de uma qualidade consideradas insubstituíveis, e portanto impermeáveis a qualquer avanço técnico – como o piano de cauda em relação a qualquer teclado ou a pintura a óleo em relação a qualquer plotagem. Quase sempre, um gênero ou uma técnica adquirem plenamente o estatuto de grande arte quando desaparece o seu contexto original e sua própria necessidade produtiva.Talvez estejamos adquirindo a consciência tardia de que o LP não foi apenas um suporte, mas uma forma artística. Como a sinfonia e o romance.











