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História das Livrarias Cariocas: o Sebo Baratos & post scriptum

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[Este artigo é na verdade um fichamento do magnifico livro HISTÓRIA DAS LIVRARIAS CARIOCAS, de Ubiratan Machado, editado pela EDUSP em 2012. Suas 487 páginas cobrem com rigor e minúcia o período que se inicia com Antônio Máximo de Brito solicitando à Coroa portuguesa licença para importação de 20 livros em 1775 até o rebuliço causado pela Estante Virtual em 2010. Acrescentei de alguns fatos posteriores relevantes e algumas narrativas pessoais - trabalho no ramo desde 1998 e hoje gerencio a Baratos da Ribeiro Livraria, em Botafogo.]

 

PRIMEIRO Post-Scriptum: um relato em primeira pessoa sobre o SEBO BARATOS

 

Após montar o acervo e treinar a equipe da livraria Gracilianos do Ramo, fui incumbido de idealizar e botar de pé a Baratos da Ribeiro Livraria. Marcelo Lachter, ocupado com outros negócios, me deu carta branca. Me formei livreiro na cartilha de Marcelo, dele herdando o interesse pelo cânone ocidental, certo “mercantilismo humanista” (meio que um liberalismo iluminista) e o trato com colegas, sócios,  fornecedores e empregados, além de alguns princípios de gestão– como priorizar a folha de pagamento dentre as despesas e a aversão à hora extra (se não deu pra terminar durante o expediente normal é por incompetência: de quem distribuiu as tarefas, de quem as realizou ou da empresa, que não contratou mão de obra suficiente). (Outra lição fundamental: sócio é que tem obrigação de “vestir a camisa”, funcionários estão apenas atrás da grana pra bancarem sua vida fora do emprego. E tá tudo certo.) Mas o ambiente que mais me agradou sempre foi a Livraria Berinjela, especialmente pela pegada roqueira de Maurício Nascentes. Daí que a livraria que organizei em 2001 tenha sido nomeada em alusão à loja de discos e gravadora Baratos Afins, de São Paulo – estado em que vivi até os 17 anos.

 

Meses depois ajudei a transformar a Dazibao do Paço em Livraria Imperial. Com Chico Neiva aprimorei meu rebolado para lidar com gente ilustre e também com credores. (Nunca vi ninguém tratar pendências com tanta dignidade, honradez e empenho como Chico. Um craque e um gentleman.) Enquanto trabalhava na Praça XV: Lisandro Gaertner assumiu as rédeas da Baratos. Como de praxe: azeitada a Imperial, voltei à minha toca na Rua Barata Ribeiro 354. No meu lugar, na Imperial: entrou Raphael Vidal, que anos mais tarde criará a Casa Porto e o Bafo da Prainha. Ao longo desses primeiros anos me diverti muito, mas ganhava pouco. Conforme me pediam mais tempo e energia, e aumentavam minhas responsabilidades, fui exigindo alguma participação societária na Baratos da Ribeiro.À exemplo de Aluízio Leite: essas alterações costumavam ser “de boca”; um aperto de mãos era suficiente, dada a irrestrita confiança em Marcelo e seus sócios.

 

Em 2004 a situação da Livreiros Associados revelou-se muito pior do que imaginavam os sócios. Com as dificuldades de fluxo de caixa o investidor Creso Andrade exigiu, pela primeira vez, uma prestação de contas. Marcelo, que era o gestor de todas as 4 firmas das quais participava, foi incapaz de reunir e organizar os números. Estava navegando às cegas. Me prontifiquei a pesquisar o passado das 4 firmas, levantar esses números e botar tudo em planilhas. Descobri que apenas a Baratos da Ribeiro estava saudável, e que todo esse lucro tinha sido usado para tapar buracos nas outras livrarias. O Sebo Baratos, que eu pilotava, funcionava muito bem, mas também estava mal financeiramente, contaminada por problemas que não eram seus. Apresentei junto com esses balancetes um plano de dissociação do grupo. Assim morreram a Livreiros Associados e a Gracilianos do Ramo, Marcelo ficou com Robson Jucá na Imperial e eu fiquei com a Baratos da Ribeiro– acompanhado de Creso e Paulo Terra.    

 

O Livraria Baratos da Ribeiro funcionou até 2014 em Copacabana, quandoo aumento do aluguel (Copa do Mundo, Olimpíadas etc) me levou primeiramente para Rua Paulino Fernandes 15 (vizinho à onde funcionou o La Folie, onde conheci Marcelo) e finalmente para a Rua 19 de Fevereiro 90, na esquina com a Voluntários da Pátria– onde estamos desde 2020.

 

Adotando o apelido Sebo Baratos desde a mudança para Botafogo, a loja desde o início se dedicou igualmente aos livros, quadrinhos e discos. Minhas três paixões, desde a adolescência em Taubaté, quando frequentava o Sebo do Seu Dito. Desde o início também promovendo os mais diversos eventos, de saraus de poesia a clubes de leitura, de shows de rock a DJs sets, passando por encenação teatral e exposição de gravuras.

 

Dos eventos já realizados dentro da Baratos, algumas das contribuições mais bacanas para a vida cultural carioca foram os Vespeiros (shows de rock promovidos em parceria com a revista em quadrinhos MOSH!, entre 2003 e 2006), o programa de rádio Clube do Vinil (de 2006 a 2020, a partir de 2008 veiculado pela Rádio Graviola) e o Clube da Leitura (entre 2007 e 2015). A Baratos bancou e editou a antologia de contos “Clube da Leitura Vol. 1: Modo de Usar”, lançada na OFF-Flip em 2009 – que deu origem a uma série: o segundo volume saiu pela Editora Flaneur em 2011 e o quarto pela Rubra Editora em 2017. Editamos mais um monte de fanzines xerocados, mas também a Outros Baratos: com umas 36 páginas, impressa “à vera” em papel jornal e com tiragem de 3 mil exemplares. (Do primeiro “Clube da Leitura: Modo de Usar” rodamos mil: tiragem esgotada em 2 anos, tendo a Baratos como praticamente único ponto de venda.)

 

Do que andamos promovendo agora em 2025: o sarau “Ode Ao Poeta”, idealizado e organizado por Igor Calazans, e Alessandro Iglesias comanda o “Alê PiraCom”, dedicado à experimentação eletroacústica, são regulares. A qualquer momento: algum outro fuzuê, no geral a partir de propostas dos artistas e intelectuais que compõem a clientela do sebo. O próximo já tem data: em 18 de junho o musicólogo lisboeta Luís Freitas Branco fará um seminário-audição de seu livro “A Revolução Antes da Revolução”, sobre os discos de intervenção que em 1971 anteciparam a Revolução dos Cravos.

 

A importância da Baratos (eu gosto de simplificar) é reconhecida por cariocas e também por gringos. Discorrem sobre a Baratos o estonteante livro “Record Stores” (Editora Seltmann+Söhne, 2017), do alemão Bernd Jonkmanns, e a edição brasileira de “Vinil: A Arte de Fazer Discos”  (PubliFolha, 2016), de Mike Evans. O “Rio de Janeiro City Guide” da Louis Vuitton, disponível em inglês e francês, a partir de 2015 indica a Baratos da Ribeiro por seu excelente e constantemente renovado acervo de livros, LPs e quadrinhos, e por seus ótimos preços. Também já apoiamos ou patrocinamos muitas publicações, nas três mídias, e bancamos e lançamos também o EP 7” de estréia do duo Látexxx, em 2020.

 

SEGUNDO Post-Scriptum: a paisagem em 2025

 

A melhor novidade em livros novos é um empreendimento inteiramente feminino e teve um parto complicadíssimo: após meses de reforma do imóvel, montagem do mobiliário  e acervo e treinamento da equipe, no mês acertado para abrir: eclode a Pandemia da Covid, em março de 2020. Leticia Bosisio e Martha Ribas seguraram legal a barra que esperamos que seja a mais difícil que já tiveram e terão. Mobilizaram todos os artistas e intelectuais que conseguiram, fizeram um montão de lives nas redes sociais e pelo YouTube, e do Jardim Botânico (Rua Maria Angélica 171, mesma galeria onde funcionou a Sete Lettras) despacharam livros para tudo quanto é canto. Não apenas sobreviveram como em abril de 2023 abriram uma filial, com Antonia Moura e Renata Maciel, no Shopping da Gávea. Os happenings literários se tornaram parte do DNA da LIVRARIA JANELA, não raro ocupando o teatro do shopping. Em maio de 2025 receberam Luiz Schwarcz (co-fundador da Editora Companhia das Letras, lançando “O primeiro Leitor: ensaio de memória”) e Mia Couto (quase de improviso, o romancista moçambicano estava pelo Rio de Janeiro em função de outro compromisso). Estão para abrir uma terceira Janela em Laranjeiras, a Rua General Glicério.

 

O mercado livreiro, mais do que nunca, é para os fortes. E essa força não é necessariamente econômica. Ivan Costa é a prova cabal de que com muito suor & simpatia – quase – tudo se consegue no universo dos livros. Depois de sobreviver à Pandemia a LIVRARIA BELLE ÉPOQUE foi totalmente destruída por um incêndio em junho de 2022, quando completava 4 anos e 5 meses de existência.

 

Amplamente amada e frequentada – já que a região toda é infelizmente muitíssimo carente de livrarias –, ponto de encontro de gente de toda a Zona Norte, recebeu imediato socorro da população, que doou livros, móveis e também dinheiro. Os amigos e vizinhos fizeram mutirão para limpar e reconstruir o imóvel. Ivan foi convidado para contar sua história no programa televisivo de Luciano Huck: e foi presenteado com um projeto para a reconstrução e todo o mobiliário necessário para implementá-lo. Com tudo o que arrecadou Ivan poderia ter se mudado para outro ponto, migrado por exemplo para o “lado rico” do bairro. Preferiu continuar “no fígado do Méier, e hoje periodicamente se estende pela rua toda: realizando uma feirinha da qual participam artesãos, editoras e autores independentes, cervejeiros artesanais, doceiras e outros empreendedores individuais do entorno; com roda de samba, DJ ou show de rap ou rock para animar, e pula-pula e piscina de bolas para as crianças. A mãe largou o emprego num botequim pé-sujo e assumiu o imóvel vizinho, onde Ivan montou o Bar da Belle, que vive festivo, avançando até quase madrugada às quarta-feiras – quando promove sarau, e às vezes karaokê.

 

Ivan malhou muito para ter essa força toda. Literalmente. Começou a empreender em 2014 com uma bicicleta de carga, pedalando do Méier até o Largo da Carioca, e depois de passar o dia vendendo livros: pedalava de volta pro Méier. Passou a variar os pontos de venda, privilegiando a Grande Tijuca e o Grande Méier. Investiu na bicicleta, adaptando a caçamba para facilitar a exposição dos produtos. Até conseguir instalar-se na Rua Soares 50.

 

Veja o caso da LIVRARIA CASA DA ÁRVORE: ideia feita realidade no meio da Pandemia, e ideia que vingou. Eduardo e abriram o negócio em outubro de 2020, dentro da Casa Omolokun, centro cultural junto à Pedra do Sal, na Gamboa. Em maio de 2021 recrutaram Ivan Costa foram para uma pequena loja na estratégica Rua Almirante Gavião 6, em frente ao Bar Madrid, reduto da boemia tijucana. Ivan não pôde ficar muito tempo, como é de se imaginar – hoje ele ainda arranja tempo para atuar na Associação Estadual das Livrarias, da qual é vice-presidente.

 

Eduardo Ribeiro, que seguiu sozinho, sabe que para atrair público é preciso bolar eventos na loja, e participar de outros tantos fora dela. Em outubro de 2024, por exemplo, a Casa da Árvore esteve na Flip pela primeira vez, firmando parceria com a vermuteria La Finca, de Paraty, e promoveu encontros com nomes como o historiador Luiz Antonio Simas. Nos demais meses do ano, as vendas ganham o reforço de feiras literárias no próprio Rio de Janeiro, como a de Realengo, ou de rodas de samba, como a realizada na Muda em homenagem ao compositor e escritor Aldir Blanc. Numa placa na entrada, lê-se: “Só o livro expulsa o algoritmo das pessoas".

 

Se alguém acredita que “a união faz a força”, esse alguém é Ana Mallet, cardiologista que há décadas se divide entre a medicina e o de comércio de livros. Por vinte anos Ana foi uma das 16 responsáveis pela Livraria Largo das Letras, em Santa Teresa. Quando a casa fechou em 2022 achou que ia sossegar, mas após coordenar a Flila, primeira festa literária do bairro de Laranjeiras, descobriu uma loja vaga numa galeria na Ruas das Laranjeiras 371. Um mês depois, em julho de 2023, nasceu ali CASA 11, sebo que é na verdade uma instituição sem fins lucrativos. Não tem sócios: tem cotistas. E não são dezesseis ou trinta e seis. São mais de 100 cotistas. Nem cabem todos ao mesmo tempo dentro da loja. Todo o acervo vem de doações e o que não cabe na loja é repassado à biblioteca comunitária da Ilha de Paquetá ou à livreiros ambulantes de rua. A Casa 11 promove muitos debates e palestras, principalmente nas áreas da psicanálise e da saúde pública ou relacionadas ao terceiro setor. E a casa fica muito animada nas noites de cine clube.


Chegamos à recém-nascida LIVRARIA ALENTO, aberta em junho de 2024 por Felippe Marchiori e a esposa Isabella Benevides na Rua Senador Vergueiro 80, no Flamengo. Quase desistiram: aqui o elemento trágico foi a água; uma série de infiltrações e um alagamento no período inicial das obras, mas  apoio do sogro Plauto permitiu superarem os obstáculos. Isabella cuida do pequeno mas bem abastecido bistrô e monta a agenda cultural, que tem sido muito mais do que um alento: é verdadeiramente empolgante. Lançamentos e sessões de autógrafos de autores como Xico Sá, Ricardo Domeneck e Angela Melim, laboratório de poesia com Igor Calazans, contação de histórias para crianças e a série de encontros “Do que falo quando falo” – que já foi protagonizado por Heyk Pimenta e Bianca Garcia. Já o experiente livreiro Felippe é responsável pelo criterioso acervo, inicialmente de usados mas que tem sido cada vez mais acrescido de ótimos títulos novos, de bem escolhidas editoras.

 

Maurício do Sebo Baratos teve Marcelo Lachter como guru, já Ivan Costa e Felippe Marchiori são discípulos de Daniel Chomski. Trabalharam na Livraria Berinjela entre 2007 e 2014 – Ivan por 3 anos e Felippe por 6 anos. Três livreiros da mesma geração: nasceram em 1979, 1981 e 1983, respectivamente.

 

Eram todos muito jovens quando seus mestres lhes iniciaram no ofício. Aprenderam às duras e próprias penas algumas lições, mas só puderam andar com as próprias pernas graças à generosidade – e apoio – de seus primeiros professores. Assim como Maurício, que tem aprendizes há mais de 20 anos (Ronaldo Dias o melhor deles, já trabalhou com Ivan), Ivan e Felipe já começaram a semear seus quintais. Não sei se uma tradição que remonta à 1775 é suficientemente velha para que eu fale de uma “ancestralidade” livreira. Mas é uma tradição à qual se orgulham se pertencer. Por acaso: Ivan nasceu no dia 21 de junho, mesma data em que veio ao mundo Machado de Assis. Bem pode se tornar uma data para celebrarmos esse personagem tão querido: o Livreiro Carioca.

 

 

TERCEIRO Post-Scriptum: uma divagação

 

Sobre as livrarias cariocas não há livro mais minucioso ou mais abrangente do que o de Ubiratan Machado. Mas é urgente corrigir algumas narrativas a respeito da primeira década do século XX - período em que sou personagem dessa história. É nítido certo viés de Ubiratan, que claramente decorre de sua predileção por certo tipo de ambiente e de livreiro – aqueles mais eruditos, ligados à bibliofilia. Ubiratan se encanta com livrarias com aspecto de salão literário, em que gente muito culta conversa animadamente sobre temas de grande relevância científica, política e cultural. Daí que Ubiratan trate por livreiro certas figuras que se destacam nessas rodas de conversa, mas que nunca ou pouco exerceram o ofício. Proprietários, gerentes e atendentes de livrarias não são necessariamente livreiros. Assim como nem todos os funcionários de uma padaria são padeiros e nem todos que trabalham numa oficina mecânica são mecânicos. Aliás: num restaurante é importante distinguir o garçom do maître, e o maîte do chef.

 

Aliás: há livreiros incrivelmente talentosos que são péssimos atendentes, gerentes e empresários.É o caso do sedutor e carismático livreiro Marcelo Lachter: brilhante em tudo, exceto na gestão de seus negócios – quebrou umas cinco vezes. Caso inverso é o de Chico Neiva: craque da administração, conseguiu que a Dazibao sobrevivesse e crescesse num período super turbulento da economia brasileira, conseguiu se reinventar com a Luzes da Cidade e adaptou-se à Estante Virtual. Como a esposa Graça, Chico é um conversador espirituoso e ouvinte generoso. Marcelo e Chico foram sócios na Livraria Imperial (que ajudei a montar, trabalhando ali em seus primeiros 6 meses de atividade): criando o que podemos chamar de ótimo astral ali no Paço Imperial. Marcelo caçava os acervos, fazia as ofertas e definia o preço dos livros adquiridos. Chico administrava: negociava as condições de pagamento aos fornecedores, conseguia empréstimos junto aos bancos, acertava a folha de pagamento, alertava para as flutuações de caixa, redirecionava os esforços da equipe ao perceber que certa seção estava dando mais ou menos lucro. O papel de ambos era crucial: mas só Marcelo Lachter era livreiro. Chico Neiva sempre delegou a reposição do estoque de suas livrarias a algum funcionário: um de seus principais escudeiros foi o discreto livreiro Francisco Aguiar (que Marcelo chamava de “O Velho Águia”) e depois, na Luzes da Cidade, o olavista Jayme Chaves. Chico Neiva só assumiu as funções de livreiro após fechar sua última livraria e passar a se dedicar a vender livros pela Estante Virtual.

 

Em suma: defendo aqui que Livreiro, com L maiúsculo, é o profissional que escolhe os livros que estarão à venda na livraria e que, no caso dos sebos, define o preço por qual será vendido cada exemplar. Gerencio livrarias há 25 anos, inclusive contratando mão de obra: das dezenas (creio que mais de centena) de pessoas que contratei: umas 10, se tanto, tinham vocação para livreiro. A maioria era apenas muita boa de papo e hábil na arrumação das estantes.

 

Mas e certo tipo de livreiro, talvez mais idealizado do que visto: aquele capaz de deduzir ou intuir, a partir da conversa com o cliente, qual título ou autor é mais indicado às necessidades do leitor? Esse dublê de telepata com pretensões evangelizadoras cai bem num folhetim (é o perfil da bibliotecária do romance “A biblioteca dos sonhos secretos”, da japonesa Michiko Aoyama, lançado no Brasil em 2023 e que tem feito muito sucesso), mas essa grotesca figura é de pouca serventia a uma livraria. Atendentes que ficam insistindo em vender esse ou aquele peixe, insensíveis aos desejos dos clientes, só fazem com que as pessoas abandonem mais cedo o estabelecimento.

 

É de uma empáfia ímpar querer ditar o que as pessoas devem ler, e de um quixotismo patético querer adivinhar o que lhes agradará. Só alcança esse miraculoso poder o livreiro (termo agora usado no sentido de atendente da livraria) que estabelece uma amizade sincera com seu cliente: tal relação é casual e idiossincrática, demanda tempo e não pode ser exigida por nenhuma das partes. E não se trata de mentoria (o “coaching” é uma das pandemias a assolar o século XXI): quando a sorte – e algum esforço - propicia esse aprazível vínculo: é sempre uma cumplicidade. (Do cliente é necessária a boa vontade para aventurar-se, e o livreiro deve estar preparado para escutar um “odiei os personagens” ou “esse escritor é um chato”. E tudo precisa ser levado na esportiva - até o dinheiro mal gasto.) No fim das contas, em se tratando de indicações de leitura: o livreiro é tão importante quanto o vizinho, o dentista, o colega de trabalho, o professor, o taxista ou a senhora da fila do supermercado com que seu cliente convive. Atendentes de livraria que não reconhecem isso: dificilmente se seguram no emprego.

 

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Maurício Andrade Gouveia, com a colaboração de Isidro Pontes

a partir de pesquisa de Ubiratan Machado

Rio de Janeiro

Maio de 2025


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