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História das Livrarias Cariocas: Contracultura & Redemocratização

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[Este artigo é na verdade um fichamento do magnifico livro HISTÓRIA DAS LIVRARIAS CARIOCAS, de Ubiratan Machado, editado pela EDUSP em 2012. Suas 487 páginas cobrem com rigor e minúcia o período que se inicia com Antônio Máximo de Brito solicitando à Coroa portuguesa licença para importação de 20 livros em 1775 até o rebuliço causado pela Estante Virtual em 2010. Acrescentei de alguns fatos posteriores relevantes e algumas narrativas pessoais - trabalho no ramo desde 1998 e hoje gerencio a Baratos da Ribeiro Livraria, em Botafogo.]

 

Contracultura & Redemocratização

 

A Livraria Cobra Norato tem vida curta mas intensa. O dono José Sanz, cineasta e crítico, inaugura em 1973 sua loja numa galeria da Rua Visconde de Pirajá 11. A entrada de Rubem Braga e Paulo Roberto Rocco (fundador da editora homônima) na sociedade é celebrada com uma noite coletiva: Raul Bopp, Vinícius de Moraes, Marina Colasanti, Afonso Romano de Sant´Anna, Drummond e Oto Lara Resende autografam e papeiam com seus leitores. A Cobra pia por apenas três anos.

 

RUI CAMPOS inicia seu reinado salvando uma livraria à beira da falência. A Livraria Carlitos foi criada em 1969, no Leblon, e vendia apenas livros de Arte e gravuras, litogravuras e serigrafias. Meses depois se muda para Copacabana e abre uma filial em numa galeria da Rua Visconde de Pirajá (número 82), com ênfase nos livros. É em Ipanema que Rui, mineiro de 20 anos e neto de um ex-governador, se emprega, enquanto sonha ser cineasta. No quarto dia de trabalho fica sabendo que os donos desistiram do negócio. Arrisca uma oferta e assume a loja.

 

A LIVRARIA MURO, inaugurada em 1974, é o centro da contracultura carioca, segundo lar de poetas como Chacal e Wally Salomão, palco dos debates, armações e experimentações dessa inquieta juventude. Em 76 se muda para uma loja no subsolo e começa seu período mais arretado, se firmando como uma “livraria de resistência”, vendendo os títulos proibidos pela Ditadura, e festivo. A Zona Sul passa a ter também animadas noites de autógrafo, fartas em bebida e música. Em 1978 entra na sociedade Aluízio Leite Filho, que convence Rui a multiplicar os pontos de venda. Abrem uma filial para o público infanto-juvenil na mesma galeria da sede, lojas no campus do Fundão (na Faculdade de Arquitetura) e no Centro Cultural Candido Mendes (em Ipanema) e na Rua Conde de Bonfim 344 – Rui não participa da aventura na Tijuca. Falta foco ao pequeno conglomerado, e logo falta grana. Aluízio Leite se retira, deixando a batata quente para Rui. Um professor de filosofia topa comprar o barulho: muda o nome da filial tijucana para A Ilha (em homenagem à Cuba), rema mais um pouco contra a maré e naufraga em 1982.

 

Em 1978 surge uma das livrarias que se mantém até hoje em destaque na vida cultural carioca: a ARGUMENTO. Foi iniciativa de Dalva Gasparian, exasperada com a dificuldade de seu marido Fernando em escoar os livros de sua editora Paz & Terra– outro calo no pé da Ditadura. Os amigos torcem, mas não botam fé: os editores Sérgio Lacerda (Nova Fronteira) e Alfredo Machado (Record) julgam a Rua Dias Ferreira muito erma e escura. Felizmente estão enganados: a livraria mais que vinga. Acervo elogiado – que inclui o catálogo da mexicana Siglo XXI, prestigiado e difícil de se encontrar no Brasil – lançamentos com cardeais da esquerda como Miguel Arraes, Paulo Freire, Fernando Henrique Cardoso e Celso Furtado fazem da loja no número 199 um point badalado. Poucos anos depois Dalva e o marido se mudam para São Paulo e os filhos Eduardo, Marcus e Laura assumem o negócio. Abrem uma seção de CDs, transferem a loja para o número 417, passam a funcionar até meia-noite, instalam o Café Severino e ampliam repetidamente o espaço até ocuparem 600 metros quadrados. Entram no século XXI servindo de locação para a novela “Laços de Família”, e na televisão é chamada de livraria Dom Casmurro -  em 2006 repetem a parceria com a Rede Globo, em “Páginas da Vida”: e desta vez a Argumento é chamada pelo nome. Entre seus fuzuês de maior sucesso e longevidade está a celebração do Bloomsday: 16 de junho, data em que transcorre o romance “Ulisses” de James Joyce. É pioneira em convidar especialistas para participarem da curadoria do acervo: Ana Maria Machado para a seção infantojuvenil, Rosa Herz para a gastronomia, Mário Cohen para os livros de fotografia. O nome da livraria se refere à revista lançada em 1978 sob direção de Barbosa Lima Sobrinho, que durou apenas quatro números; mas que renasce em 2004.

 

Com a Anistia em 1979 a esperança renasce: os exilados desembarcam aos borbotões no aeroporto Galeão e pela Zona Sul brotam livrarias. Entre essas 11 novas casas estão: Livraria do Pasquim (na Ataulfo de Paiva), Taurus-Nórdica (Ataulfo de Paiva) e Nórdica (Avenida Nsa. Sra. De Copacabana), Noa Noa (Shopping Cassino Atlântico, em Copa), Ponto 8 (Rua Siqueira Campos) e a Eu & Você (rua Constante Ramos). Um dos personagens cruciais dessa renovação livreira é também uma das figuras mais pitorescas do ramo:

 

ALUÍZIO LEITE

nasceu em berço de ouro, em 1938, e abandonou a carreira de administrador para ser cinegrafista na equipe de Amaral Neto. Sua transformação em livreiro advém de sua esperteza: acumulado um fiado astronômico na Muro, ameaça dar calote e diz só ser capaz que pagar o que deve trabalhando na livraria. Carismático e megalômano, Rui o descreve como o melhor e o pior sócio do mundo. Amigos o descrevem como inteligente, engraçado, criativo e também mentiroso, confuso e enrolado.

 

Por volta de 1984 é gerente, dono único ou co-proprietário de 4 livrarias – Xanan, Timbre, Picadeiro e a Muro da Cândido Mendes. Lê dez livros por semana, se empenha em promover o autor nacional e não perde uma piada– se um freguês pede indicação de um livro para presentear a namorada, Aluízio pede para a ela ser apresentado. Perde vendas se julga o cliente não merecedor da obra e mantém escondida uma seção de raridades que só mostra a quem julga digno. Extremamente seguro de si, crê ser capaz de vender qualquer livro, o que até parece ser verdade – poesia, um gênero tido na meio livreiro como difícil, vende muitíssimo bem nas livrarias de Aluízio. Chega a se aventurar no ramo editorial, fundando com Jorge Bastos e Gustavo Meyer o selo Taurus Timbre, em fins dos anos 80. Falece em 28 de dezembro de 2000, de câncer no pulmão. Sua fenomenal biblioteca particular, com 8 mil volumes, é adquirida pela Livraria Universal.

 

DAZIBAO é uma pequena rede que encarna o espírito otimista e festivo da redemocratização. Fundada em dezembro de 1980 promove uma noite de autógrafo atrás da outra (80 só no primeiro ano!), aos sábados reúne os amigos para uma caipirinha – esticada numa feijoada pelas imediações – e atrai a classe artística, para muito além da literatura e academicismos. Os roqueiros da geração Circo Voador também adoram a livraria fundada pelo casal Chico e Graça Neiva– que em 83 abrem a sociedade para Rita Lopes e Rui Campos. Trocam a pequena loja na galeria Astoria (Rua Visconde de Pirajá 595) por outra de beira de rua, no número 571, e passam a importar livros. O chavão da época é que “todo mundo que ê passa pela Dazibao”. A expansão os leva ao Centro (Travessa do Ouvidor 11 e dentro do Paço Imperial), Botafogo (Rua Voluntários da Pátria 367), Catete (Rua do Catete 314) e Praça Tiradentes (dentro do Centro Cultural Hélio Oiticica). Tudo isso graças a um intenso trabalho de participação em feiras de colégios e universidades e promoção de debates. O economista Francisco Neiva está convicto de ter feito bem ao abandonar o emprego numa multinacional para seguir os sonhos da esposa.

 

Outro ícone do astral oitentista é a TIMBRE, aberta por Marina Celina Lage e sua sobrinha Christiana “Kiki” Machado, em 1979, no Shopping da Marquês de São Vicente 52, a princípio radicalmente voltada para a Arte. Em 83 Kiki decide viver no Mato Grosso e vende sua parte para Aluízio Leite: negociação feita numa lanchonete e selada com um aperto de mãos. Seis anos depois Kiki volta de mala e cuia para o Rio e procura Aluízio: quer reingressar na Timbre. Fácil, extremamente fácil: Leite jamais alterou o contrato social da firma. A Timbre é querida tanto por intelectuais da velha guarda como Plínio Doyle e Villas-Boas Corrêa quanto por poetas como Chacal, Geraldo Carneiro e Wally Salomão, e também por artistas plásticos como Tunga e Luiz Aquila– que de uísque na mão circulam entre a livraria e a galeria Ana Maria Niemeyer, quase em frente. É também na Timbre que se escola e se aprimora uma das melhores livreiras cariocas: Nélida Capela, em grande parte responsável por essa agitação cultural – e que levará esse astral para outras casas, como a Blooks.

 

A Gávea conta ainda com a livraria Bookmakers, que Edna Palatnik, uma das sócias e ex-diretora executiva da Casa de Criação da Rede Globo, define como uma mistura de Soho e Grajaú. Aberta em 1988 na Rua Marquês de São Vicente 7, a livraria possui um bar – o Cabaret Bijou, renomeado Café do Autor -, recebe shows de jazz e música erudita e batiza suas estantes com títulos bem humorados – a de clássicos se chama “Vale a pena ler de novo”. De sua confraria participam Gerd Bornheim, Fernando Sabino, Leandro Konder, Otto Lara Resende, Marieta Severo, Chico Buarque, Rubem Braga, José Wilker, Scarlet Moon, Afonso Romano de Sant´Anna e Marina Colasanti.

 

A LIVRARIA DA TRAVESSA

nasce quando Rui se dissocia do casal Chico e Graça e assume a Dazibao da Travessa do Ouvidor 11– em 1986. Rui tem um faro incrível para escolher empregados: sua equipe é ou muito culta ou extremamente atenciosa e prestativa. Rui também é muitíssimo organizado, criando protocolos e rotinas num ramo tradicionalmente entregue às idiossincrasias e manias dos atendentes e balconistas. E sabe aproveitar as amizades feitas com a clientela, abrindo a sociedade para investidores que não querem arregaçar as mangas, mas que almejam os privilégios e status de dono de livraria. Isso tudo resulta numa capacidade ímpar de expandir com pompa o negócio. Passa para o número 17 da mesma Travessa. Abre lojinhas no Centro Cultural Banco do Brasil e no Museu de Arte Moderna. Chega à Ipanema, na Rua Visconde de Pirajá 462, em 1996: o projeto do mobiliário interno e da decoração é assinado pelos arquitetos Bob Guedes e Bel Lobo. A festa de lançamento, fechadas para amigos e imprensa, é com Aldir Blanc – lançando “Um cara bacana na 19ª”. Em 2002, na montagem do “Travessão”, na Visconde de Pirajá 572, a iluminação é projetada por Maneco Quinderé, que vem do showbusiness. Por volta de 2010 a Travessa tem 360 funcionários e a gerência geral está entregue ao habilidoso Benjamin Magalhães. Em 2025 são 5 lojas no Rio de Janeiro, 1 em Niterói, 5 em São Paulo, 1 em Ribeirão Preto, 1 em Brasília, 1 em Lisboa e ouvi falar de 1 sendo construída em Porto Alegre: um vasto império.

 

O mercado de usados é sempre mais volúvel e dinâmico do que o de livros novos, posto que é necessário um investimento muito menor. No crepúsculo da década de 80 nasce na galeria Fiamma, na Visconde de Pirajá  365, a Livraria Alpharrabio, de Ana Paula Martins e Adda di Guimarães, sobrinha-neta de Cora Coralina e sebista tão apaixonada quanto resoluta e geniosa. Adda parece gostar de espaços minúsculos: seu primeiro empreendimento ocupa 18 metros quadrados e seu último funciona numa banca de jornais na Praça Nossa Senhora da Paz, no coração de Ipanema. Nascida em 2003, a Cena Muda é milagreira: monta exposições (de raridades de Monteiro Lobato, por exemplo) e reedita os pornográficos  Catecismos de Carlos Zéfiros. Adda foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural Carioca em 2018. Faleceu em abril de 2024.

 

Quem também recebeu honrarias, no caso a medalha Pedro Ernesto, por seus serviços prestados à cultura carioca foi o professor de literatura Carlos Alberto Afonso, fundador da Toca do Vinícius, loja de discos e livros especializada em Bossa Nova. Inaugurada em 1993 na Rua Vinícius de Moraes 129, em Ipanema, durou até 2020.

 

Ana Paula Martins segue acumulando livros após o fim da Alpharrabio e dois anos depois, em 1994, inaugura a DANTES, na Rua Dias Ferreira 45. Ana é tão brilhante livreira quanto agitadora cultural: Marcus Alvisi dirige e interpreta na livraria um espetáculo adaptado de contos do João do Rio, promove saraus e palestras e até convida os meninos que vendem empada pelo bairro para apresentarem seu funk. Ana é também uma caprichosa editora de livros, resgatando textos preciosos e praticamente esquecidos como “O subterrâneo do Morro do Castelo” de Lima Barreto. Em 2005 se transfere para o segundo andar do Cine Odeon, na Cinelândia, onde brilhará por mais uns anos. O Leblon jamais terá outro sebo, exceto pelo Le Bon Sebon, breve experimento do psicólogo, escritor e designer de jogos Lisandro Gaertner.

 

Há sebistas sagazes, há os de vitalidade sobre-humana e que trabalham duro, e há os acima de tudo teimosos. Nesta última categoria estão Ubiratan Pimentel, Sérgio de Vasconcelos e Fernando Antônio Carvalho. A partir de 1989 passam a semear sebos: sempre mal das pernas, mas sempre de pé, nem que seja para tocar o chão e, numa mirabolante cambalhota, reerguer-se num novo CNPJ – figurativamente falando, porque essa turma não tem o hábito de formalizar suas firmas na Junta Comercial. Começam numa sala na Rua do Catete 183 (Nova Livraria, onde funcionara a redação da revista Presença) e juntos ou em aventuras solo partem para a Rua Alcântara Machado 36 (Novo Sebo), passam pela Lapa, na Rua Joaquim Silva (Livraria João do Rio, em 1993, a alcunha que perdurará),voltam à Rua do Catete 183, abrem uma filial na Rua Correia Dutra 59 (Livraria Macunaíma), se mudam para um sobrado na Rua do Catete 164, onde em 1998 surge o sebo Maria Fumaça, de Ubiratan, enquanto a livraria João do Rio, agora com Fernando e Sérgio, passa para o número 140 da mesma Rua do Catete, quase na esquina com a Silveira Martins, muito perto do Museu da República. Em 2000 a João do Rio muda-se para a Rua do Resende 21, de onde é despejada em 2005 após dois anos de inadimplência do aluguel. Sérgio fecha a Maria Fumaça no ano seguinte e algum tempo depois reabre no Catete, requentando o nome João do Rio.

 

A idéia mais desastrada do trio de alfarrabistas talvez tenha sido o bizarro esquema de condomínio: cada um comprava separadamente os seus lotes de livros, e o caixa registrava o proprietário de cada exemplar vendido; as despesas eram rateadas de acordo com a participação de cada livreiro no faturamento mensal. Então se Fernando respondia por 40% das vendas, devia arcar com 40% do aluguel, conta de luz e água, salário de funcionários etc. Mas Fernando às vezes comprava um lote em parceria com Sérgio, que podia emprestar dinheiro de um hipotético Zezinho para adquirir outro lote, e ainda os funcionários – Beltrano e Fulano, digamos - porventura somavam seus próprios livros ao estoque. Então na hora de definir o rateio havia uma infinidade de donos: Fernando, Sérgio, Fernando + Sérgio, Sérgio + Zezinho, Beltrano, Fulano, Fernando + Beltrano, Fernando + Beltrano + Sérgio, Sérgio + Fulano + Zezinho e por aí vai. A planilha do caixa era um caos de abreviações e siglas – F, S, FS, SZ, B, F, FB, FBS, SFZ etc – e nem colocamos a questão da fração com que cada um participou de cada lote ou ainda o fato de que em cada venda havia livros de variados donos. E num ponto chegaram a ter 5 ou 6 “condôminos” participando dessa insanidade! Entre eles: Marcelo Lachter.

 

Pitorecos são também os sebos Che, que Sérgio Barros abre no Andaraí (Rua Gastão Penalva 173) para difundir o marxismo e outras filosofias de esquerda, e o Beta de Aquarius, no Catete (Rua Buarque de Macedo 72), cujo proprietário talvez seja o pior patrão da história do ramo (os empregados partem traumatizados, como podem testemunhar seus empregadores seguintes), tem mantém uma tradição quase desaparecida: a dos gatos – no caso Osíris e Ísis –, adotados para combater infestações no ambiente. O primeiro sebo data de 1993 e o segundo de 1999.

 

O sebo Mar de Histórias, na Rua Francisco Sá 51, em Copacabana, surge em 1997, quando o ex-funcionário da Entrelivros Luís Carlos Araújo (no ramo desde os anos 70) se encontra à beira da falência. Luís Carlos se tornou proprietário do ponto quando a rede Entrelivros desistiu dessa filial, em que era empregado, e não conseguia equacionar as contas. Ofereceu sociedade a Marcelo Lachter, que entendendo a real e terrível situação da empresa: disse que topava, desde que se liquidasse o estoque e se investisse a grana em livros usados. Marcelo salvou a Mar de Histórias, que segue até hoje, com Luís Carlos à frente.

 

O mais bem sucedido sebista dessa geração é Ademílson Jarbas Cabral, que chega como um trator em 1994. Provando mais uma vez que o ramo acolhe muitíssimo bem gente trabalhadora e persistente, a despeito do quão instruída ou culta, Cabral parte da venda improvisada na rua e se torna o maior acumulador e vendedor de livros da paróquia. Detesta perder tempo com atendimento aos clientes, prefere trabalhar no atacado e logo sua livraria na Avenida Gomes Freire 151 se torna um depósito de onde partem caixas e mais caixas para todo o Brasil, adquiridas por livreiros de outras praças. Acaba se tornando presidente da associação que gere a(s) Feira(s) itinerante(s) de livros, e que circula – para desgosto dos livreiros tradicionais – pelo Largo da Carioca, Cinelândia, Praça Sezerdelo Corrêa, Saens Peña etc – afinal a lei municipal, dos anos 50, que viabilizou essas feiras tinha por objetivo levar livros aos bairros carentes de livrarias.

 

Nos anos 90 o sucesso das megastores de livros tornou mais difícil a sobrevivência das livrarias tradicionais. Alguns se salvaram ao se especializarem, como a Pororoca: na ativa desde 1985, no terceiro andar da Rua Visconde de Pirajá 540, e nos primórdios muito envolvida com a contracultura, apostou em certa vertente da cultura hippie e tornou-se uma referência nacional para livros místicos e esotéricos, e depois de fechar as portas seu fundador Álvaro Piano Rocha trabalhará para outras firmas, gerenciado essas seções em livrarias como a Travessa. Quem pode instala um café ou bar, artifício que integra a fórmula das megastores. A Argumento, por exemplo, aumenta seu faturamento em 40% com o Café Severino. A Letras & Expressões, em Ipanema, se garante com o Café Ubaldo– onde o patrono João Ubaldo tem sua própria garrafa de uísque etiquetada.

 

Saraus, shows, café, cerveja e comida se tornam ainda mais íntimos dos livros. O expediente das livrarias da Gávea– Timbre, Bookmakers, Malasartes, Marcabru – passa a se estender até o “Baixo” (termo carioca que veio a designar amontoados de bares com gente de copo na mão esparramada pela calçada e rua) na Praça Santos Dumont, encorpado ainda pelos alunos e professores da PUC-RJ. No Planetário o livreiro rastafári Papa-Léguas mantém o quiosque Yuri Gagarin.  Os poetas, músicos e artistas plásticos que frequentam o Centro de Experimentação Poética 20.000 no Humaitá podem, à caminho do Baixo Gávea tomar uns drinks, , entre 1999 e até 2013, na Livraria Ponte de Tábuas, da esquina das ruas Jardim Botânico e J. J. Seabra – onde o poeta, ator, dramaturgo e professor (e atualmente secretário de cultura de Maricá) Sady Bianchin cria o sarau Ponte de Versos, encampado por Thereza Christina Rocque da Motta, que cria a editora Íbis Libris e segue até hoje tocando a Ponte.

 

Bares decidem botar livros à venda Bares decidem botar livros à venda. É o caso do La Folie, restaurante aberto em 1998, em Botafogo: onde a discretíssima Norma (tanto que não consegui descobrir seu sobrenome), livreira por excelência da comunidade judaica carioca, dispõe uma estante de livros usados. Na época o estudante Maurício Gouveia trabalha na Associação Brasileira de Arte Fotográfica, na rua Assis Bueno, e costuma tomar um chope no restaurante da Rua Paulino Fernandes 13, a caminho da república que divide com amigos, numa transversal à Farani. O livreiro Marcelo Lachter também frequenta o La Folie: ali de conhecem e Maurício se interessa pela Banana Books, sebo virtual de Marcelo. Lachter sugere que o rapaz vá qualquer dia até sua casa na rua Dona Mariana buscar o catálogo (em disquete três-quartos), e ele chega na hora do jantar: em que estavam também o livreiro Fernando Carvalho e a companheira à época de Marcelo, encadernadora da Biblioteca Nacional. Este é o feliz acaso que tirará Maurício do jornalismo e o transformará em livreiro.

 

A LIVRARIA BERINJELA

é na aurora do milênio o sebo predileto dos universitários, poetas, esquerdistas e boêmios. Graças à renovação do estoque e aos preços camaradas: segue favorito entre os que, envelhecendo, se tornam mais caseiros e menos militantes. Quem acompanha a agitação dos primeiros anos, entre a fundação em 1996 e a despedida em Maurício em 200, pode pensar que o outro sócio fundador, Daniel, nunca tenha se empolgado com os saraus, campeonatos de futebol de botão e shows de rock promovidos no subsolo do edifício Marquês de Herval – em frente à Da Vinci. Se engana. Daniel Chomski ganha circunspecção sob o peso dos anos e das responsabilidades, mas basta a chegada de um cliente mais íntimo para tirar-lhe dos esconderijos– a salinha atrás do caixa, um banquinho rodeado por pilhas de sacolas de livros –: surge um sorriso irônico e um anfitrião caloroso, mas econômico nas palavras, mais maestro do que solista nas conversas. A versão madura do livreiro que começou a carreira em 1984 com a livraria By The Book: não tinha nem 20 anos. Já neste sebo, montado no mezzanino do bar e mercearia Cesta Carioca, havia algazarra, shows de rock e de rodas de samba. Migrou para uma loja própria na mesma Conselheiro Saraiva e fechou em 1992. Daniel teve uma rápida passagem pela livraria Brumário (Avenida Almirante Barroso 22) antes de empreender novamente.

 

Faz sentido que o frequentador da Berinjela atribua as atividades musicais – e por associação tudo de mais barulhento e etílico – à Maurício Nascentes: afinal é ele o responsável pela seção de discos. Após deixar a Berinjela Maurício empreende em Ipanema – o sebo Boca do Sapo funciona entre 2003 e 2005 na Rua Visconde de Pirajá 12 – e finalmente opta pela CLT, sendo contratado por Carlos Alves e Lílian Ribeiro para cuidar do sebo que integra o restaurante Al-Fahabi – na Rua do Rosário 32, no corredor cultural do Arco do Teles, no Centro Histórico. Após os anos no Al-Fahabi: Maurício decide se dedicar à gastronomia – sendo um dos maiores especialistas em azeite da cidade.

 

A importância da Livraria Berinjela pode ser medida pela revista-em-formato-de-livro “Modo de Usar & Co”, dedicada à poesia, tradução e crítica literária, editada pelo sebo. O quarto volume, de setembro de 2013, conta com 55 autores, de clássicos como Ovídio a jovens e nativos talentos como Juliana Krapp, Ismar Tirelli Neto e Joca Reiners Terron.

 

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Maurício Andrade Gouveia, com a colaboração de Isidro Pontes

a partir de pesquisa de Ubiratan Machado

Rio de Janeiro

Maio de 2025


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