[Este artigo é na verdade um fichamento do magnifico livro HISTÓRIA DAS
LIVRARIAS CARIOCAS, de Ubiratan Machado,
editado pela EDUSP em 2012. Suas 487 páginas cobrem com rigor e minúcia o
período que se inicia com Antônio Máximo de Brito solicitando à Coroa
portuguesa licença para importação de 20 livros em 1775 até o rebuliço causado
pela Estante Virtual em 2010. Acrescentei de alguns fatos posteriores relevantes
e algumas narrativas pessoais - trabalho no ramo desde 1998 e hoje gerencio a
Baratos da Ribeiro Livraria, em Botafogo.]
Contracultura & Redemocratização
A Livraria Cobra Norato tem vida curta mas intensa. O dono José Sanz, cineasta e crítico, inaugura em
1973 sua loja numa galeria da Rua Visconde de Pirajá 11. A entrada de Rubem
Braga e Paulo Roberto Rocco (fundador da editora homônima) na sociedade
é celebrada com uma noite coletiva: Raul Bopp, Vinícius de Moraes, Marina
Colasanti, Afonso Romano de Sant´Anna, Drummond e Oto Lara Resende autografam e
papeiam com seus leitores. A Cobra pia por apenas três anos.
RUI CAMPOS inicia seu reinado salvando uma livraria à beira da
falência. A Livraria Carlitos foi
criada em 1969, no Leblon, e vendia apenas livros de Arte e gravuras,
litogravuras e serigrafias. Meses depois se muda para Copacabana e abre uma
filial em numa galeria da Rua Visconde de Pirajá (número 82), com ênfase nos
livros. É em Ipanema que Rui, mineiro de 20 anos e neto de um ex-governador, se
emprega, enquanto sonha ser cineasta. No quarto dia de trabalho fica sabendo
que os donos desistiram do negócio. Arrisca uma oferta e assume a loja.
A LIVRARIA MURO, inaugurada em 1974, é o centro da contracultura
carioca, segundo lar de poetas como
Chacal e Wally Salomão, palco dos debates, armações e experimentações dessa
inquieta juventude. Em 76 se muda para uma loja no subsolo e começa seu período
mais arretado, se firmando como uma “livraria de resistência”, vendendo os
títulos proibidos pela Ditadura, e festivo. A Zona Sul passa a ter também animadas
noites de autógrafo, fartas em bebida e música. Em 1978 entra na sociedade
Aluízio Leite Filho, que convence Rui a multiplicar os pontos de venda.
Abrem uma filial para o público infanto-juvenil na mesma galeria da sede, lojas
no campus do Fundão (na Faculdade de Arquitetura) e no Centro Cultural Candido
Mendes (em Ipanema) e na Rua Conde de Bonfim 344 – Rui não participa da aventura
na Tijuca. Falta foco ao pequeno conglomerado, e logo falta grana. Aluízio
Leite se retira, deixando a batata quente para Rui. Um professor de filosofia topa
comprar o barulho: muda o nome da filial tijucana para A Ilha (em homenagem à
Cuba), rema mais um pouco contra a maré e naufraga em 1982.
Em 1978 surge uma das livrarias que se mantém até hoje em destaque na
vida cultural carioca: a ARGUMENTO. Foi iniciativa de Dalva Gasparian,
exasperada com a dificuldade de seu marido Fernando em escoar os livros de sua
editora Paz & Terra– outro calo
no pé da Ditadura. Os amigos torcem, mas não botam fé: os editores Sérgio
Lacerda (Nova Fronteira) e Alfredo Machado (Record) julgam a Rua Dias Ferreira
muito erma e escura. Felizmente estão enganados: a livraria mais que vinga.
Acervo elogiado – que inclui o catálogo da mexicana Siglo XXI, prestigiado e
difícil de se encontrar no Brasil – lançamentos com cardeais da esquerda como
Miguel Arraes, Paulo Freire, Fernando Henrique Cardoso e Celso Furtado fazem da
loja no número 199 um point badalado. Poucos anos depois Dalva e o marido se
mudam para São Paulo e os filhos Eduardo, Marcus e Laura assumem o negócio. Abrem
uma seção de CDs, transferem a loja para o número 417, passam a funcionar até
meia-noite, instalam o Café Severino e ampliam repetidamente o espaço até
ocuparem 600 metros quadrados. Entram no século XXI servindo de locação para a
novela “Laços de Família”, e na televisão é chamada de livraria Dom Casmurro
- em 2006 repetem a parceria com a Rede
Globo, em “Páginas da Vida”: e desta vez a Argumento é chamada pelo nome. Entre
seus fuzuês de maior sucesso e longevidade está a celebração do Bloomsday: 16
de junho, data em que transcorre o romance “Ulisses” de James Joyce. É pioneira
em convidar especialistas para participarem da curadoria do acervo: Ana Maria
Machado para a seção infantojuvenil, Rosa Herz para a gastronomia, Mário Cohen
para os livros de fotografia. O nome da livraria se refere à revista lançada
em 1978 sob direção de Barbosa Lima Sobrinho, que durou apenas quatro
números; mas que renasce em 2004.
Com a Anistia em 1979 a esperança renasce: os exilados desembarcam aos
borbotões no aeroporto Galeão e pela Zona Sul brotam livrarias. Entre essas 11 novas casas estão: Livraria do Pasquim
(na Ataulfo de Paiva), Taurus-Nórdica (Ataulfo de Paiva) e Nórdica (Avenida
Nsa. Sra. De Copacabana), Noa Noa (Shopping Cassino Atlântico, em Copa), Ponto
8 (Rua Siqueira Campos) e a Eu & Você (rua Constante Ramos). Um dos
personagens cruciais dessa renovação livreira é também uma das figuras mais
pitorescas do ramo:
ALUÍZIO LEITE
nasceu
em berço de ouro, em 1938, e abandonou a carreira de administrador para ser
cinegrafista na equipe de Amaral Neto. Sua transformação em livreiro advém
de sua esperteza: acumulado um fiado astronômico na Muro, ameaça dar calote e
diz só ser capaz que pagar o que deve trabalhando na livraria. Carismático
e megalômano, Rui o descreve como o melhor e o pior sócio do mundo.
Amigos o descrevem como inteligente, engraçado, criativo e também mentiroso,
confuso e enrolado.
Por
volta de 1984 é gerente, dono único ou co-proprietário de 4 livrarias – Xanan,
Timbre, Picadeiro e a Muro da Cândido Mendes. Lê dez livros por semana, se
empenha em promover o autor nacional e não perde uma piada– se um freguês
pede indicação de um livro para presentear a namorada, Aluízio pede para a ela
ser apresentado. Perde vendas se julga o cliente não merecedor da obra e mantém
escondida uma seção de raridades que só mostra a quem julga digno. Extremamente
seguro de si, crê ser capaz de vender qualquer livro, o que até parece ser
verdade – poesia, um gênero tido na meio livreiro como difícil, vende
muitíssimo bem nas livrarias de Aluízio. Chega a se aventurar no ramo
editorial, fundando com Jorge Bastos e Gustavo Meyer o selo Taurus Timbre, em fins
dos anos 80. Falece em 28 de dezembro de 2000, de câncer no pulmão. Sua
fenomenal biblioteca particular, com 8 mil volumes, é adquirida pela Livraria
Universal.
DAZIBAO é uma pequena rede que encarna o espírito otimista e festivo da
redemocratização. Fundada em dezembro de 1980 promove uma noite de autógrafo atrás da outra (80 só no primeiro
ano!), aos sábados reúne os amigos para uma caipirinha – esticada numa feijoada
pelas imediações – e atrai a classe artística, para muito além da literatura
e academicismos. Os roqueiros da geração Circo Voador também adoram a livraria
fundada pelo casal Chico e Graça Neiva– que em 83 abrem a sociedade para
Rita Lopes e Rui Campos. Trocam a pequena loja na galeria Astoria (Rua Visconde
de Pirajá 595) por outra de beira de rua, no número 571, e passam a importar
livros. O chavão da época é que “todo mundo que ê passa pela Dazibao”. A
expansão os leva ao Centro (Travessa do Ouvidor 11 e dentro do Paço Imperial),
Botafogo (Rua Voluntários da Pátria 367), Catete (Rua do Catete 314) e Praça
Tiradentes (dentro do Centro Cultural Hélio Oiticica). Tudo isso graças a um
intenso trabalho de participação em feiras de colégios e universidades e
promoção de debates. O economista Francisco Neiva está convicto de ter feito
bem ao abandonar o emprego numa multinacional para seguir os sonhos da esposa.
Outro ícone do astral oitentista é a TIMBRE, aberta por Marina Celina
Lage e sua sobrinha Christiana “Kiki” Machado, em 1979, no Shopping da Marquês de São Vicente 52, a princípio
radicalmente voltada para a Arte. Em 83 Kiki decide viver no Mato Grosso e
vende sua parte para Aluízio Leite: negociação feita numa lanchonete e selada
com um aperto de mãos. Seis anos depois Kiki volta de mala e cuia para o Rio e
procura Aluízio: quer reingressar na Timbre. Fácil, extremamente fácil: Leite
jamais alterou o contrato social da firma. A Timbre é querida tanto por
intelectuais da velha guarda como Plínio Doyle e Villas-Boas Corrêa quanto por
poetas como Chacal, Geraldo Carneiro e Wally Salomão, e também por artistas
plásticos como Tunga e Luiz Aquila– que de uísque na mão circulam entre a
livraria e a galeria Ana Maria Niemeyer, quase em frente. É também na Timbre
que se escola e se aprimora uma das melhores livreiras cariocas: Nélida
Capela, em grande parte responsável por essa agitação cultural – e que
levará esse astral para outras casas, como a Blooks.
A Gávea conta ainda com a livraria Bookmakers, que Edna Palatnik, uma
das sócias e ex-diretora executiva da Casa de Criação da Rede Globo, define
como uma mistura de Soho e Grajaú.
Aberta em 1988 na Rua Marquês de São Vicente 7, a livraria possui um bar – o
Cabaret Bijou, renomeado Café do Autor -, recebe shows de jazz e música erudita
e batiza suas estantes com títulos bem humorados – a de clássicos se chama
“Vale a pena ler de novo”. De sua confraria participam Gerd Bornheim, Fernando
Sabino, Leandro Konder, Otto Lara Resende, Marieta Severo, Chico Buarque, Rubem
Braga, José Wilker, Scarlet Moon, Afonso Romano de Sant´Anna e Marina
Colasanti.
A LIVRARIA DA TRAVESSA
nasce quando Rui se dissocia do casal Chico e Graça e assume a Dazibao
da Travessa do Ouvidor 11– em 1986.
Rui tem um faro incrível para escolher empregados: sua equipe é ou muito
culta ou extremamente atenciosa e prestativa. Rui também é muitíssimo
organizado, criando protocolos e rotinas num ramo tradicionalmente entregue
às idiossincrasias e manias dos atendentes e balconistas. E sabe aproveitar
as amizades feitas com a clientela, abrindo a sociedade para investidores
que não querem arregaçar as mangas, mas que almejam os privilégios e status de
dono de livraria. Isso tudo resulta numa capacidade ímpar de expandir com pompa
o negócio. Passa para o número 17 da mesma Travessa. Abre lojinhas no Centro
Cultural Banco do Brasil e no Museu de Arte Moderna. Chega à Ipanema, na Rua
Visconde de Pirajá 462, em 1996: o projeto do mobiliário interno e da decoração
é assinado pelos arquitetos Bob Guedes e Bel Lobo. A festa de lançamento,
fechadas para amigos e imprensa, é com Aldir Blanc – lançando “Um cara bacana
na 19ª”. Em 2002, na montagem do “Travessão”, na Visconde de Pirajá 572, a
iluminação é projetada por Maneco Quinderé, que vem do showbusiness. Por
volta de 2010 a Travessa tem 360 funcionários e a gerência geral está entregue
ao habilidoso Benjamin Magalhães. Em 2025 são 5 lojas no Rio de Janeiro, 1
em Niterói, 5 em São Paulo, 1 em Ribeirão Preto, 1 em Brasília, 1 em Lisboa e
ouvi falar de 1 sendo construída em Porto Alegre: um vasto império.
O mercado de usados é sempre mais volúvel e dinâmico do que o de livros
novos, posto que é necessário um
investimento muito menor. No crepúsculo da década de 80 nasce na galeria
Fiamma, na Visconde de Pirajá 365, a Livraria
Alpharrabio, de Ana Paula Martins e Adda di Guimarães, sobrinha-neta de
Cora Coralina e sebista tão apaixonada quanto resoluta e geniosa. Adda
parece gostar de espaços minúsculos: seu primeiro empreendimento ocupa 18
metros quadrados e seu último funciona numa banca de jornais na Praça Nossa
Senhora da Paz, no coração de Ipanema. Nascida em 2003, a Cena Muda é
milagreira: monta exposições (de raridades de Monteiro Lobato, por exemplo)
e reedita os pornográficos Catecismos de
Carlos Zéfiros. Adda foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural Carioca em
2018. Faleceu em abril de 2024.
Quem
também recebeu honrarias, no caso a medalha Pedro Ernesto, por seus serviços
prestados à cultura carioca foi o professor de literatura Carlos Alberto Afonso,
fundador da Toca do Vinícius, loja de discos e livros especializada em Bossa
Nova. Inaugurada em 1993 na Rua Vinícius de Moraes 129, em Ipanema, durou
até 2020.
Ana
Paula Martins segue acumulando livros após o fim da Alpharrabio e dois anos
depois, em 1994, inaugura a DANTES, na Rua Dias Ferreira 45. Ana é tão
brilhante livreira quanto agitadora cultural: Marcus Alvisi dirige e
interpreta na livraria um espetáculo adaptado de contos do João do Rio, promove
saraus e palestras e até convida os meninos que vendem empada pelo bairro para apresentarem
seu funk. Ana é também uma caprichosa editora de livros, resgatando textos
preciosos e praticamente esquecidos como “O subterrâneo do Morro do Castelo” de
Lima Barreto. Em 2005 se transfere para o segundo andar do Cine Odeon, na
Cinelândia, onde brilhará por mais uns anos. O Leblon jamais terá outro
sebo, exceto pelo Le Bon Sebon, breve experimento do psicólogo, escritor e
designer de jogos Lisandro Gaertner.
Há sebistas sagazes, há os de vitalidade sobre-humana e que trabalham
duro, e há os acima de tudo teimosos. Nesta última categoria estão Ubiratan
Pimentel, Sérgio de Vasconcelos e Fernando Antônio Carvalho. A partir de 1989 passam a semear sebos: sempre mal
das pernas, mas sempre de pé, nem que seja para tocar o chão e, numa
mirabolante cambalhota, reerguer-se num novo CNPJ – figurativamente falando,
porque essa turma não tem o hábito de formalizar suas firmas na Junta
Comercial. Começam numa sala na Rua do Catete 183 (Nova Livraria, onde
funcionara a redação da revista Presença) e juntos ou em aventuras solo partem
para a Rua Alcântara Machado 36 (Novo Sebo), passam pela Lapa, na Rua Joaquim
Silva (Livraria João do Rio, em 1993, a alcunha que perdurará),voltam à Rua do
Catete 183, abrem uma filial na Rua Correia Dutra 59 (Livraria Macunaíma), se
mudam para um sobrado na Rua do Catete 164, onde em 1998 surge o sebo Maria
Fumaça, de Ubiratan, enquanto a livraria João do Rio, agora com Fernando e
Sérgio, passa para o número 140 da mesma Rua do Catete, quase na esquina com a
Silveira Martins, muito perto do Museu da República. Em 2000 a João do Rio
muda-se para a Rua do Resende 21, de onde é despejada em 2005 após dois anos de
inadimplência do aluguel. Sérgio fecha a Maria Fumaça no ano seguinte e algum
tempo depois reabre no Catete, requentando o nome João do Rio.
A idéia mais desastrada do trio de alfarrabistas talvez tenha sido o
bizarro esquema de condomínio: cada
um comprava separadamente os seus lotes de livros, e o caixa registrava o
proprietário de cada exemplar vendido; as despesas eram rateadas de acordo com
a participação de cada livreiro no faturamento mensal. Então se Fernando
respondia por 40% das vendas, devia arcar com 40% do aluguel, conta de luz e
água, salário de funcionários etc. Mas Fernando às vezes comprava um lote em
parceria com Sérgio, que podia emprestar dinheiro de um hipotético Zezinho para
adquirir outro lote, e ainda os funcionários – Beltrano e Fulano, digamos -
porventura somavam seus próprios livros ao estoque. Então na hora de definir o
rateio havia uma infinidade de donos: Fernando, Sérgio, Fernando + Sérgio,
Sérgio + Zezinho, Beltrano, Fulano, Fernando + Beltrano, Fernando + Beltrano +
Sérgio, Sérgio + Fulano + Zezinho e por aí vai. A planilha do caixa era um caos
de abreviações e siglas – F, S, FS, SZ, B, F, FB, FBS, SFZ etc – e nem
colocamos a questão da fração com que cada um participou de cada lote ou ainda
o fato de que em cada venda havia livros de variados donos. E num ponto
chegaram a ter 5 ou 6 “condôminos” participando dessa insanidade! Entre
eles: Marcelo Lachter.
Pitorecos são também os sebos Che, que Sérgio Barros abre no Andaraí (Rua Gastão Penalva 173) para
difundir o marxismo e outras filosofias de esquerda, e o Beta de Aquarius,
no Catete (Rua Buarque de Macedo 72), cujo proprietário talvez seja o pior
patrão da história do ramo (os empregados partem traumatizados, como podem
testemunhar seus empregadores seguintes), tem mantém uma tradição quase
desaparecida: a dos gatos – no caso Osíris e Ísis –, adotados para combater
infestações no ambiente. O primeiro sebo data de 1993 e o segundo de 1999.
O sebo Mar de Histórias, na Rua Francisco Sá 51, em Copacabana, surge
em 1997, quando o ex-funcionário da
Entrelivros Luís Carlos Araújo (no ramo desde os anos 70) se encontra à beira
da falência. Luís Carlos se tornou proprietário do ponto quando a rede
Entrelivros desistiu dessa filial, em que era empregado, e não conseguia
equacionar as contas. Ofereceu sociedade a Marcelo Lachter, que entendendo a
real e terrível situação da empresa: disse que topava, desde que se liquidasse
o estoque e se investisse a grana em livros usados. Marcelo salvou a Mar de
Histórias, que segue até hoje, com Luís Carlos à frente.
O mais bem sucedido sebista dessa geração é Ademílson Jarbas Cabral,
que chega como um trator em 1994. Provando mais uma vez que o ramo acolhe
muitíssimo bem gente trabalhadora e persistente, a despeito do quão instruída
ou culta, Cabral parte da venda
improvisada na rua e se torna o maior acumulador e vendedor de livros da
paróquia. Detesta perder tempo com atendimento aos clientes, prefere trabalhar
no atacado e logo sua livraria na Avenida Gomes Freire 151 se torna um depósito
de onde partem caixas e mais caixas para todo o Brasil, adquiridas por
livreiros de outras praças. Acaba se tornando presidente da associação que gere
a(s) Feira(s) itinerante(s) de livros, e que circula – para desgosto dos
livreiros tradicionais – pelo Largo da Carioca, Cinelândia, Praça Sezerdelo
Corrêa, Saens Peña etc – afinal a lei municipal, dos anos 50, que viabilizou
essas feiras tinha por objetivo levar livros aos bairros carentes de livrarias.
Nos anos 90 o sucesso das megastores de livros tornou mais difícil a
sobrevivência das livrarias tradicionais. Alguns se salvaram ao se
especializarem, como a Pororoca: na
ativa desde 1985, no terceiro andar da Rua Visconde de Pirajá 540, e nos
primórdios muito envolvida com a contracultura, apostou em certa vertente da
cultura hippie e tornou-se uma referência nacional para livros místicos e
esotéricos, e depois de fechar as portas seu fundador Álvaro Piano Rocha
trabalhará para outras firmas, gerenciado essas seções em livrarias como a
Travessa. Quem pode instala um café ou bar, artifício que integra a fórmula
das megastores. A Argumento, por exemplo, aumenta seu faturamento em 40% com o
Café Severino. A Letras & Expressões, em Ipanema, se garante com o Café
Ubaldo– onde o patrono João Ubaldo tem sua própria garrafa de uísque
etiquetada.
Saraus, shows, café, cerveja e comida se tornam ainda mais íntimos dos
livros. O expediente das livrarias da Gávea– Timbre, Bookmakers, Malasartes, Marcabru – passa a se estender
até o “Baixo” (termo carioca que veio a designar amontoados de bares com
gente de copo na mão esparramada pela calçada e rua) na Praça Santos Dumont,
encorpado ainda pelos alunos e professores da PUC-RJ. No Planetário o livreiro
rastafári Papa-Léguas mantém o quiosque Yuri Gagarin. Os poetas, músicos e artistas plásticos que
frequentam o Centro de Experimentação Poética 20.000 no Humaitá podem, à
caminho do Baixo Gávea tomar uns drinks, , entre 1999 e até 2013, na Livraria
Ponte de Tábuas, da esquina das ruas Jardim Botânico e J. J. Seabra – onde
o poeta, ator, dramaturgo e professor (e atualmente secretário de cultura de
Maricá) Sady Bianchin cria o sarau Ponte de Versos, encampado por Thereza
Christina Rocque da Motta, que cria a editora Íbis Libris e segue até hoje
tocando a Ponte.
Bares decidem botar livros à venda Bares decidem botar livros à venda.
É o caso do La Folie, restaurante aberto em 1998, em Botafogo: onde a discretíssima Norma (tanto que
não consegui descobrir seu sobrenome), livreira por excelência da comunidade
judaica carioca, dispõe uma estante de livros usados. Na época o estudante
Maurício Gouveia trabalha na Associação Brasileira de Arte Fotográfica, na rua
Assis Bueno, e costuma tomar um chope no restaurante da Rua Paulino Fernandes
13, a caminho da república que divide com amigos, numa transversal à Farani. O
livreiro Marcelo Lachter também frequenta o La Folie: ali de conhecem e
Maurício se interessa pela Banana Books, sebo virtual de Marcelo. Lachter sugere
que o rapaz vá qualquer dia até sua casa na rua Dona Mariana buscar o catálogo
(em disquete três-quartos), e ele chega na hora do jantar: em que estavam
também o livreiro Fernando Carvalho e a companheira à época de Marcelo,
encadernadora da Biblioteca Nacional. Este é o feliz acaso que tirará Maurício
do jornalismo e o transformará em livreiro.
A LIVRARIA BERINJELA
é na aurora do milênio o sebo predileto dos universitários, poetas,
esquerdistas e boêmios. Graças à renovação do estoque e aos preços camaradas:
segue favorito entre os que,
envelhecendo, se tornam mais caseiros e menos militantes. Quem acompanha a
agitação dos primeiros anos, entre a fundação em 1996 e a despedida em Maurício
em 200, pode pensar que o outro sócio fundador, Daniel, nunca tenha se
empolgado com os saraus, campeonatos de futebol de botão e shows de rock
promovidos no subsolo do edifício Marquês de Herval – em frente à Da Vinci. Se
engana. Daniel Chomski ganha circunspecção sob o peso dos anos e das
responsabilidades, mas basta a chegada de um cliente mais íntimo para tirar-lhe
dos esconderijos– a salinha atrás do caixa, um banquinho rodeado por
pilhas de sacolas de livros –: surge um sorriso irônico e um anfitrião
caloroso, mas econômico nas palavras, mais maestro do que solista nas
conversas. A versão madura do livreiro que começou a carreira em 1984 com a
livraria By The Book: não tinha nem 20 anos. Já neste sebo, montado no
mezzanino do bar e mercearia Cesta Carioca, havia algazarra, shows de rock e de
rodas de samba. Migrou para uma loja própria na mesma Conselheiro Saraiva e
fechou em 1992. Daniel teve uma rápida passagem pela livraria Brumário (Avenida
Almirante Barroso 22) antes de empreender novamente.
Faz sentido que o frequentador da Berinjela atribua as atividades
musicais – e por associação tudo de mais barulhento e etílico – à Maurício
Nascentes: afinal é ele o responsável
pela seção de discos. Após deixar a Berinjela Maurício empreende em Ipanema – o
sebo Boca do Sapo funciona entre 2003 e 2005 na Rua Visconde de Pirajá 12 – e
finalmente opta pela CLT, sendo contratado por Carlos Alves e Lílian Ribeiro
para cuidar do sebo que integra o restaurante Al-Fahabi – na Rua do Rosário 32,
no corredor cultural do Arco do Teles, no Centro Histórico. Após os anos no
Al-Fahabi: Maurício decide se dedicar à gastronomia – sendo um dos maiores
especialistas em azeite da cidade.
A importância da Livraria Berinjela pode ser medida pela
revista-em-formato-de-livro “Modo de Usar & Co”, dedicada à poesia, tradução e crítica literária,
editada pelo sebo. O quarto volume, de setembro de 2013, conta com 55 autores,
de clássicos como Ovídio a jovens e nativos talentos como Juliana Krapp, Ismar
Tirelli Neto e Joca Reiners Terron.
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Maurício
Andrade Gouveia, com a colaboração de Isidro Pontes
a
partir de pesquisa de Ubiratan Machado
Rio
de Janeiro
Maio
de 2025










