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"Fragmentos da enciclopédia délfica", por Miguelanxo Prado

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TRECHO DE RESENHA SOBRE A EDIÇÃO PORTUGUESA:

"No final o autor fala na influência dos mais clássicos e conhecidos autores de ficção científica, desde Clarke, Stanislav Lem, Orwell, Dick, Farmer ou Asimov, mas a mim é-me impossível ler esta história e não me recordar da Guerra da Elevação de David Brin, com a humanidade a elevar à consciência os chimpanzés e os golfinhos, ainda que numa perspectiva menos utilitária. 

Este terá sido o primeiro livro de Miguelanxo Prado, publicado inicialmente em capítulos na revista 1984 nos anos 80 e que terá tido uma primeira edição completa ainda em 1988. São de destacar os elementos reconhecíveis de uma extensa cultura de ficção científica, com o ser humano a explorar novas sensações por recurso à tecnologia e a desenvolver novas capacidades mentais (como telepatia ou telecinesia) tão em voga há umas décadas.

É de realçar, também, a exploração das limitações comportamentais do ser humano mesmo nestes contextos de elevado desenvolvimento, limitações que podem dar lugar a outras deambulações intelectuais – a necessidade de se sentir superior e de fazer de outras entidades objectos, a necessidade de escarnecer os indivíduos que são considerados retrógrados, a necessidade de, por vezes, combater a mudança e a evolução. São questões que têm surgido em várias obras e que vão surgindo aqui, em cada episódio da história humana. Esta edição portuguesa é da Meribérica/Liber."
por Cristina Alves





TENHO LIDO pouquíssimo: ando sem cabeça...
mas minha primeira paixão nunca falha: OS QUADRINHOS

A ATUAL SITUAÇÃO PARECE FICÇÃO CIENTÍFICA, né?
E note: a especulação sobre o futuro é um dos pilares da ficção científica, mas ela tradicionalmente investigou futuros muito distantes, e era comum que nossa civilização fosse, à altura dos fatos narrados, algo misterioso, perdido e esquecido pelos Homens do futuro.

A DESCRIÇÃO DO COLAPSO DESSE MUNDO erigido nessa sequência que começa na Grécia Antiga e Roma, passa pela hegemonia europeia sobre os outros continentes e culmina esse planeta movido à petróleo, capitalista e culturalmente dividido entre Cristãos, Muçulmanos e Chineses, A NARRATIVA DOS EPISÓDIOS QUE DESTROEM TUDO ISSO, em detalhes, é coisa recente na Ficção Científica e no Terror: será que foi George Romero e seus zumbis os pioneiros?

NUNCA ME INTERESSOU A UTOPIA RACIONALISTA DO "JORNADA NAS ESTRELAS / STAR TREK". Sempre preferi o capa-e-espada espacial do Star Wars ou o neo-primitivismo pós-apocalíptico a la Mad Max.

ENTÃO PORQUE AGORA, DIANTE DA PANDEMIA, SOU INCAPAZ de mergulhar nesse tipo de literatura ou cinema? Acho que é medo mesmo. Agora que as profecias se concretizam, estou apavorado demais pra pensar no que farei da vida se não puder ter um sebo que seja um espaço físico, aberto à todos seis vezes por semana.

MAS FIQUEI MARAVILHADO COM "FRAGMENTOS DE LA ENCICLOPEDIA DÉLFICA"do Miguelanxo Prado, um dos melhores e mais versáteis quadrinistas que já conheci. Galego nascido em 1958.

"Este fue mi primer libro. Publicado inicialmente por capí­tulos en la revista 1984, la narración propone una hipotética historia de la humanidad en los próximos 10.000 años, regida por el aparente principio de que la evolución del ser humano continúa a pesar de los tremendos errores que constantemente -y dramáticamente- comete."

Essa é uma obra SUPER OTIMISTA, mas que narra o DESAPARECIMENTO DA ESPÉCIE HUMANA da Galáxia. Mas atenção! Não se trata da morte da Humanidade. Vou tentar resumir (e esqueçam essa bobagem de spoiler: a graça dessa HQ independe de você conhecer a linha cronológica onde os episódios se encaixam):

 
FIM DO SÉCULO XX:
aparecem os andróides, desenvolvidos a partir de biotecnologia.

2006:
a neurorobótica consegue transmitir por via "wireless" informações diretamente para o cérebro.

2013:
forma-se um Federação Mundial, como se a ONU ganhasse mais poderes.

2015:
colonização da Lua.

2098:
nasce, na lua, o primeiro mutante: humanos com capacidades especiais resultantes da adaptação do ambiente lunar. Essa geração de humanos permite a expansão da colonização para Marte e Vênus.

2446:
 a Federação Mundial se converte em um único Estado. Aparecem movimentos separatistas nas colônias. A economia passa a girar em torno da exploração de minerais em asteróides. Os andróides ocupam a maior parte dos postos de trabalho na exploração desses recursos no espaço. As Corporações Mineradoras ganham cada vez mais poder.

2458:
o presidente da maior Mineradora se torna presidente da Terra. Vários escândalos de sabotagens no "desembarque" dos minérios na terra: a queda de pequenos asteróides na Terra é dissimuladamente usada para o extermínio de populações indesejadas, em geral envolvidas em disputas de terras. Os satélites Ganimedes e IO conseguem a independência.


TERCEIRO MILÊNIO:
expansão da Humanidade pela Galáxia. A distância torna impossível ao Sistema Solar controlar as colônias mais distantes, que agem com quase total autonomia. Surge um neo-feudalismo de proporções cósmicas. Período de muita violência nos planetas mais periféricos, onde as disputas pelo poder são frequentes e sangrentas.


4250:
começa a surgir os Novos Homens: mutações fazem surgir poderes psíquicos de grande vulto, da telecinese à precognição. Conforme a população de Novos Homens cresce surgem tensões sociais: racismos. A Terra perde importância no sistema econômico galáctico e se torna o epicentro do que acaba se tornando um reduto cada vez mais isolado do Homo Sapiens. Ao ponto do Homo Sapiens praticamente desaparecer: a humanidade agora é toda de Homens Novos.

5010-5020:
a tecnologia permite a indução de salto evolutivo em primatas: os chipanzés são reproduzidos em cativeiro e ganham capacidade cognitiva equivalente ao dos Homo Sapiens. Passam a viver como escravos dos homens.

SÉTIMO MILÊNIO:
os humanos já não fazem nenhum trabalho que não seja intelectual. Os trabalhos físicos ficam por conta dos primatas, supervisionados por andróides.

Em guerras e conflitos todos os soldados são primatas, enquanto os andróides são oficiais e não descem aos campos de batalha. O motivo é econômico: é mais barato repor um primata morto do que fabricar um andróide substituto.

Começa o movimento pelos direitos dos primatas. De início criam-se leis que dá autonomia a indivíduos que demonstram inteligência acima da média. Apesar de violações constantes a essas medidas protetivas, com o tempo chega-se à equiparação total de direitos entre primatas e humanos.

7200:
a indução do salto evolutivo funciona em golfinhos.

AINDA NO SÉTIMO MILÊNIO:
abolição do núcleo familiar tradicional e das relações conjugais entre casais. As pessoas se organizam em Coletivos Íntimos, com livre interação sexual entre os adultos, que acabam sendo tratados como unidades em termos de divisão do trabalho (intelectual). As raras pessoas que insistem em viver sozinhas são muitíssimo mal vistas. Seus pares são incapazes de compreender esse tipo de comportamento.


OITAVO MILÊNIO:
os Coletivos Íntimos não dão certo, por serem demasiado instáveis (não havia compromisso a longo prazo das pessoas se manterem num mesmo coletivo) e surge o Individualismo Social, um ponto ótimo de equilíbrio entre direitos e necessidades dos indivíduos e da comunidade. A taxa de natalidade nesse ponto é baixíssima, e a população humana é há muito tempo decrescente.

8342:
abolição da escravidão dos primatas no último planeta que a praticava, Hermes.

NONO MILÊNIO:
descoberta de uma raça de árvores sencientes. De início os humanos são incapazes de se comunicar com as árvores, não pela impossibilidade da comunhão de pensamentos: acontece que os pensamentos e raciocínios e uma e outra espécie são de início absolutamente incompatíveis. Os pensamentos das árvores são ininteligíveis para os humanos, e vice-versa. De todo modo os homens transplantam essas plantas para todos os planetas onde possível.

Os jovens são particularmente interessados nas árvores, e muito rapidamente, em 2 ou 3 gerações, os homens aprendem a dialogar com as árvores, num processo de acelerada assimilação cultural. Os mais velhos e conservadores, no entanto, reagem mal e acusam os jovens de se entorpecerem com seus "amigos" vegetais e de adotarem uma atitude escapista e decadente, desinteressada na economia e na expanção, até mesmo na manutenção, do "Império Galáctico".

Quando o movimento conservador ataca as árvores, no intuito de exterminá-las, começa um gigantesco êxodo dos jovens para os Sistema Solar original das árvores. Os jovens simplesmente abandonam o estilo de vida de seus pais e avós.

Esses jovens se declaram uma nova espécie: o Homo Finis, e anunciam ter como objetivo realizar o "Terceiro Salto": aventurar-se para além da Galáxia conhecida. Elaboram um meio de controlar e direcionar todo o Sistema Solar das Árvores, que sai de sua órbita cósmica e parte: abandona a Galáxia.

O último humano da Galáxia conhecida, Noa Bai Amerán, morre de velhice em 10.348, em Ansal. No mesmo dia de sua morte chega a última mensagem do Homo Finis: declarando os primatas, as árvores e a esquecida "quarta espécie" os herdeiros da Galáxia. Se despedem a avisam que não será mais possível comunicarem-se, dali em diante.

OS PRIMATAS decidem, anos depois, se libertar de toda a cultura humana, no intuito de não cometerem os mesmos erros, e desenvolverem seus próprios valores e modo de vida. Os primatas ainda apegados à Cultura Humana são exilados na periferia da Galáxia e se tornam historiadores e arqueólogos. São mantidos isolados para que não influenciem a evolução dos outros primatas.

NA ÚLTIMA HISTÓRIA DO LIVRO
vemos uma expedição arqueológica chegando a um planeta há muitíssimo não visitado e até onde se sabe desabitado. É um planeta obscuro, de uma região do espaço que se tornou política e economicamente irrelevante. A nave do arqueólogo se acidenta ao entrar na atmosfera, por conta de um escudo protetor que não haviam percebido. A atmosfera tem vários elementos biologicamente danosos aos primatas,e só um dos arqueólogos sobrevive. Lá ele encontra golfinhos inteligentes, com uma civilização submarina pujante e completamente harmoniosa.


O planeta é a Terra, berço da Humanidade. Foram os homens que criaram o escudo protetor, para proteger os golfinhos de início artificialmente evoluídos. Antes de abandonar o planeta esses últimos terráqueos deixaram as instruções para os golfinhos, se e quando quisessem, desligassem o escudo, e se integrassem à comunidade galáctica. Só que os golfinhos nunca quiseram fazê-lo.

A tal ENCICLOPÉDIA DÉLFICA são fragmentos dos arquivos que os Homens deixaram, compilando toda sua História, Cultura e Conhecimento. Só que os primatas perderam a tecnologia para acessar esses arquivos. Eles acabam voltando à Terra e são parcialmente recuperados pelos golfinhos.


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