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Channel: porque de nada sirve escaparse de uno mismo
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Fixo o olhar no ventilador de teto do quarto porque um velho amigo fez o mesmo, muitos anos atrás, e ato contínuo disse-me o que tomei por nonsense, à época. Mas o Saulo estava me revelando algo, que só hoje, década e tanto depois, eu finalmente entendo, graças à uma cena do quarto episódio da serie “Mozart in the Jungle”, em que Rodrigo (interpretado por Gael Garcia Bernal) escuta a cidade ao cruzar uma das pontes que conectam Manhattan ao continente. Os episódios diferem em muito até: estou num apartamento de fundos de uma rua tranquila ao fim de uma noite de domingo, eu e Saulo estávamos no Big Bi da Siqueira Campos com a Barata Ribeiro no meio de um ruidoso dia de trabalho; estou olhando para o ventilador na esperança de avivar a lembrança, Saulo escutava atentamente o ventilador porque se encantou pelo timbre / cor / tom do barulho que o aparelho fazia. Em comum: discutíamos o assunto que tem sido minha prioridade pelos últimos vinte e sete anos: MÚSICA.


            Pouco entendo de epistemologia e metodologia científica, mas por pertencer à turma do António Maria– a turma dos que, por ausência de qualquer atributo físico e  miséria de recursos materiais, só se fazem notar pelo que dizem – fui obrigado a exercitar as faculdades mentais como se elas fossem um músculo, e a vida pudesse ser vencida na base da porrada. A cultura como ringue, o pensamento como arte marcial. Pois bem: creio que quanto mais e melhor observamos o mundo, mais complexo ele se revela; concomitantemente elaboramos estratégias para simplificá-lo, porque é assim que tornamos maleável e amigável algo – o mundo – que, de outro modo, seria monolítico e ameaçador. Daí que a matemática seja tão infinitamente desafiadora, mas a redução binária seja tão eficaz e poderosa – é com zeros e uns que se fez o software que estou utilizando para escrever, e é com zeros e uns que tornarei esse texto acessível a qualquer um dos sete bilhões de seres humanos que dividem comigo esse planeta. Então me permito uma redução e afirmo: há os que se regozijam na certeza e há os que se regozijam no engano. Tem quem se apraz ao reafirmar o que é – “estou certo! Sigo sendo o que era!” – e tem quem pule de alegria ao perceber que errou – “e agora? As coisas serão diferentes! Ótimo”.

            Saulo foi dos meus melhores amigos e com certeza absoluta a música foi o que nos conectou. Mas nunca estivemos interessados nos mesmo artistas e a relação de cada um com a “sua” música foi, pelo que tudo indica, muito diversa. O que tínhamos em comum? ROCK´N´ROLL, sim: mas isso só diz que os artistas não estavam muito distantes, em termos de classificação. Ele amava e eu desprezava Nirvana, Jethro Tull, Soundgarden, Shelter, Alice in Chains e Mudhoney. Eu amava e ele desprezava David Bowie, Dexy´s Midnight Runners, The The, James, Supertramp e Animals.

Saulo tirava sarro do que dizia ser “música de jornalista”: artistas que valiam mais pelo pitoresco de suas biografias do que pelas obras que assinavam. Hoje não me dói reconhecer que ele estava certo: infelizmente não sou músico como Saulo é, e os elementos extra-musicais que eventualmente me atraíram para esse ou aquele artista indicam, a meu ver, critérios de avaliação relevantes quando consideramos que vivemos num determinado tempo e lugar, e é mais do que legítimo – é urgente – fazer da Música uma ferramenta útil em nossas vidas. Eu tentei e fracassei: não toco violão, guitarra e nem contrabaixo. Mas escuto – e promovo, no meu trabalho – certa música, porque para além do prazer eu preciso dela e sem ela muito do que me é essencial não seria possível. Em comum eu e Saulo tínhamos a paixão pelo Fugazi: a banda hardcore que fazia do hardcore algo muito mais abrangente e interessante do que ela havia sido até o Dead Kennedys e o Rollins Band.

            A MÚSICA ERUDITAé anterior à invenção da Juventude (século XX) e isso basta para que ela tenha sido identificada como velha – coisa “de adultos” - e por consequência comprometida com o status quo.  Meu amigo Saulo foi mais radicalmente jovem do que eu (refiro-me às drogas) e no entanto chegou na música do século XV, enquanto eu achei portais para o tango, o jazz e o samba-canção, mas nunca consegui enveredar pelas sinfonias e óperas. Saulo escancarou as portas de suas percepções ao limite, decidiu nunca mais fazê-lo com uso de entorpecentes e seguiu aventurando-se nos sons com base tão somente da yoga – no mais amplo dos sentidos.  Tornou-se artista plástico, mas nunca desistiu da guitarra elétrica: seu último projeto musical (uns 12 anos atrás, depois nos afastamos e deixei de acompanhar suas aventuras) era transpor para o formato banda (baixo, guitarra & bateria) uma peça religiosa do século XV.

            O CHARME DO ROCK´N´ROLL É SUA INCOMPATIBILIDADE COM O COMPORTAMENTO PADRÃO. O rock´n´roll não tem nenhuma proposta para um mundo melhor, mas ele afirma que isso que está aí é uma merda, e qualquer música que reafirme o que está aí não merece ser chamado de rock´n´roll. Trata-se de uma afirmação precária, e muitos dirão que inconsequente , estéril ou frívola; mas é disso que se trata. É pouco? Talvez. Mas é um belíssimo ponto de partida.

            ENVELHECER É DRAMÁTICO. Para quase todo mundo significa menos capacidade – fisicamente falando, no mínimo – e menos perspectiva – porque o tempo disponível é cada vez menor. Estou prestes a completar 41 anos de idade, e vivo uma crise com o rock´n´roll: há algo que eu ainda possa fazer por ele? Ou: se trata de algo significativo o bastante para ainda fazer parte da minha vida? Se por rock´n´roll entendo o prazer no incômodo – “não me encaixo nesse modelo de mundo” – então: sim. Não quero apenas o que me deram! Não quero conviver com tanta insatisfação, AINDA QUE A DOS OUTROS. Não quero servir para essa merda de mundo que está aí.

            POIS A MÚSICA CLÁSSICA NÃO COMBINA COM O QUE ESTÁ AÍ. No momento escuto duas sinfonias de Mozart, com orquestra conduzida por Richard Edlinger, que somam 64 minutos. Essa música altera o funcionamento do tempo: nesse dia agora “cabem” apenas 48 “músicas”, se eu não dormir. Essa música altera meu cérebro: devo concentrar-me por 34 minutos se quero apreender o sentido da sinfonia número 41. Essa música desafia o meu equipamento eletrônico: a dinâmica é brutalmente maior do que ele costuma reproduzir, e é difícil escutar a orquestra nos momentos mais suaves da peça. Essa música reorganiza minha casa: tenho que impedir a faxineira de usar o aspirador de pó! A música pop que impera no mundo é curta e feita para abrir caminho à tapa no meio da barulheira em que vivemos.

            ME LEMBRO ENTÃO DOS MOMENTOS EM QUE FUI ARREBATADO PELA MÚSICA. E tento não confundir a comoção estética com a alegria de estar com os amigos – tente você: não é fácil.

Uma tarde meio tensa porque era moleque e mexia nos CDs do meu avô sem autorização, escutando “Gricel”...  o tango que se tornaria também o meu predileto... Quando percebi um cravo numa canção do Paulinho da Viola (aquele LP do banquinho)... O solo do Robert Fripp em “baby´s on fire” do Brian Eno... escutei num walkman, fazendo hora no laguinho da ECO, onde estudei... Quando escutando The Cure percebi a diferença da guitarra gravada num amplificador  transistorizado – em oposição aos gravados em amplificadores valvulados... Ou quando estive na showroom da Audiopax, uma marca de equipamentos de alta fidelidade, e escutando “Walk on the wild side” do Lou Reed pude discernir, com clareza cristalina, o baixo elétrico do contrabaixo acústico. 

            MUITO PODE SER DITO ATRAVÉS DA MÚSICA, MAS O SOM TEM QUALIDADES INTRÍNSECAS QUE INDEPENDEM DAS “MENSAGENS” QUE ELE ARTICULA. Pelamordedeus indiquem um livro ou texto que trate melhor disso que estou tentando afirmar, mas me permitam um último esforço: a canção popular tende a fazer do som um acessório da poesia, e o showbusiness tende a subordinar a própria poesia musicada aos ritos de socialização. A canção emociona pela “história que conta”, e pior: muitas vezes a canção só “funciona” se a festa – i.e.: a birita & a turma & as luzes etc & tal – for boa. Mas não se engane: o êxtase estético proporcionado pela apreciação do som, pura e simplesmente som, ainda é poderosíssimo, e todos nós já o experimentamos.

            NUMA ÉPOCA TÃO ATORDOANTE, em que ou trabalhamos ou consumimos e mal sobra tempo para as necessidades fisiológicas (seja cagar ou dormir ou comer ou trepar), UMA MÚSICA COMO A ERUDITA SOA COMO (CONTRA?)REVOLUCIONÁRIA.

            E aí deu outro nó na minha cabeça.Porque agora pensei em política, nas corporações que lucram com camisetas de bandas de rock, nos salários dos popstars da ópera, no hipsters veganos que reciclam roupas & trabalham em co-workings, no potencial de lucro do terceiro setor e não tenho tempo de problematizar mais! Tenho também contas pra pagar, faltam dez minutos pra acabar o CD do Mozart e o banco fecha às quatro.  Minhas únicas conclusões é que 1) eu invejo o Saulo por ser capaz de reparar no barulho do ventilador enquanto come um sanduba numa esquina de Copacabana, e 2) reconheço na minha dificuldade de escutar música clássica um desafio a ser enfrentado – e estou feliz que o Gabriel Dirma Leitão e o Alexandre Florez venham em meu socorro, neste Clube do Vinil que gravaremos no dia 30 de novembro.


            PRA ENCERRAR: uma das melhores cenas da série “Mozart in the Jungle” é quando o maestro Rodrigo se vê num evento para arrecadar fundos para sua orquestra e, querendo se livrar logo das velhinhas endinheiradas, de improviso rege um grupo de peruas tirando som dos dedos úmidos deslizando na borda das taças. Parece mágica de Las Vegas, mas não: é música.  


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