Quantcast
Channel: porque de nada sirve escaparse de uno mismo
Viewing all articles
Browse latest Browse all 78

Guia do Rock Underground Brasileiro, Parte 7 : Séc. XXI: Rockabilly & afins, Bandas Instrumentais e a cena Low-Fi / Shoegazer

$
0
0
Esse é um artigo colaborativo e "em construção", ou assim espero. Conto com sugestões, correções, acréscimos e refutações enviadas por eventuais leitores. Isso pode ser feito através dos comentários, ou você pode enviar um e-mail para baratosdaribeiro@gmail.com

E agradeço desde já por todos os pitacos.

# # #


SALOON 79:

Comecei esse passeio pelo rock carioca do séc. XXI comentando os lugares onde se concentram estilos bem definidos e “tradicionalistas” como o classic rock, o heavy metal e o punk / hardcore. Ninguém sentiu falta do Rockabilly?



O Saloon 79 (na Rua Pinheiro Guimarães, em Botafogo) era um bar estiloso, mas com programação meio irregular (com muitas noites de bandas covers), até que o Tony Rocker assumiu as rédeas. Além de ter estado á frente da banda General Billy, Tony foi o criador do festival (e depois festa) Riobilly, que trouxe para o Rio bandas importantes do estilo, como The Quakes (EUA), Run Devil Run (SP) e Hillbilly Rawride (de Curitiba, há décadas a Meca brasileira do rockabilly e psychobilly). Foi lá também que conferi a fantástica Los Primitivos, da Argentina.


Maurício Garcia é peça chave da cena topetuda. Além de ser o fundador da mais longeva banda carioca do gênero, A Grande Trepada (ou simplesmente Big Trep), com mais de 20 anos de estrada, Mauk se apresenta acompanhado de Os Cadillacs Malditos e de outros feras, como o Leandro Carburator – que acabou fundando seu próprio combo, Os Carburadores. Acrescente á turma o DJ Theddy e formou-se a diretoria do rockabilly / psychobilly local.


Se o Rio de Janeiro tivesse um mercado roqueiro forte, talvez Mauk só tivesse o rockabilly em seu currículo. Mas a turma roqueira alternativa daqui foi sempre uma patota de meia dúzia... (Tanto que Skunk, futuro fundador do Planet Hemp, chegou a tocar nos primórdios do Big Trep, por volta de 1986, e até compôs 3 canções pra banda: “Sonhei com Você”, “Homem Aranha” e “Alessandro Cresce”!) Mauk sempre se aventurou por outras praias onde sua guitarra pudesse uivar alto: sua formação musical vem do punk e new wave. Tanto que integrou Os Esquizóides, Lunik 9, Ricardo & Os Caras Que Não Tem Amigos, Manguaça e atualmente ele é guitarrista da excelente Oort Clouds, de pós-post-punk – do Francisco Kraus, ex-Second Come.


A programação do Saloon 79 tem shows e festas de rock em geral, não apenas dos “billies” da vida. Mas vejo o terreno especialmente fértil para duas vertentes relacionadas às raízes do rock´n´roll.

A turma que curte uma “arqueologia musical” anda trocando as tradicionais guitarras elétricas por ukelelês, washboards, tubas, violinos e outras peças de museu. A primeira banda de destaque nessa onda foi a Uisqueletos Extravaganza Orquestra (formadas por caras egressos do psychobilly, punk e saravá metal!), que nasceu com a proposta de tocar apenas na rua e sem amplificação alguma. 


Eduardo Villa-Maior, primo de Mauk e outro fundador da Big Trep, depois de décadas aprimorando suas (maravilhosas) técnicas no contrabaixo acústico (emprestadas à primeira formação do Canastra) resolveu tocar tuba e fundou o Digga Digga Duo– que às vezes se apresenta como quarteto, acrescido de guitarra e safoxone. Edu também formou o Cisco Trio, mais nessa linha. É a turma que anda empolgada com o jazz da velha New Orleans, com o blues rural do Delta do Mississipi e com a música dos cabarés parisienses da década de 20.



Recentemente conheci lá o Klaus Koti, músico e artista plástico curitibano que no álbum “O Chamado dos Espíritos” (2013) também incursionou pelo Delta do Mississipi imaginário – só que na sua versão rednecks do pântano & bruxas-vudu & fantasmas de soldados confederados mortos. (Koti liderou também a banda Os Penitentes, cuja música ecoa um bar decadente num porto frio e tomado pelo nevoeiro, onde Tom Waits tocaria piano enquanto os bêbados afogam suas mágoas no uísque. Curitiba parece alimentar viagens sonoras desse tipo: Renato Godá também lançou um ótimo disco nesse embalo, o “Canções Para Embalar Marujos”.)


Só que naquela noite ele estava incorporando o Lendário Chucrobillyman– um garageiro e ruidoso one-man-band, tão selvagem quanto genial. 

Estranho é que nunca tenha ouvido elogios ao Vanguart, nas minhas idas ao Saloon. Não há nada mais faroeste & brasileiro do que as fazendas da região pantaneira, cortadas por estradas freqüentadas por contrabandistas paraguaios, com puteiros vagabundos pelo caminho, onde a vida pode valer um uísque falsificado. A banda de Cuiabá não investe em narrativas são sombrias (pelo contrário: seu forte são as canções de amor), mas em termos musicais eles estão muito próximos do folk, com violinos e gaitas na receita. Talvez o erro do Vanguart tenha sido acompanhar Mallu Magalhães (namorada de Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos) em seus primeiros discos...


Mas acho que o Facção Caipira vai fazer sucesso por lá. Os rapazes de Niterói fazem uma excelente fusão de blues de Chicago e rock sulista, com uma formação sui generis: bateria, baixo, violão de nylon e gaita (e o cara não canta nem toca guitarra: só toca a gaita!). Lobos totalmente solitários: não entendo como puderam se achar nesse mundão, mas agradeço aos deuses do rock por isso!  Ademais só vejo hoje 2 caras fazendo algo tão próximo do country-rock sulista: Tor Tauil (do Zumbis do Espaço, em trabalho solo) e Caio Corsalette & Dóllar Furado. Para fã nenhum de Johnny Cash botar defeito.


Além da vertente “sulista de raiz”, o templo rockabilly tem recebido grandes bandas de rock instrumental, que no geral bebem na surf music e no rock garageiro proto-punk dos anos 60 – com eventuais pitadas de Jovem Guarda.

Os Vulcânicos e Os Beach Combers (egressos dos Retrovisores, da onda neo-mod) são os principais expoentes cariocas do gênero, e uma combinação das duas deu origem ao Astro Venga.


Por mais louco que pareça, encontrar um circuito onde tocar pode ser hoje mais fácil para uma banda de rock instrumental do que para uma banda tradicional! Posso imaginar alguns motivos, mas apenas enquanto hipóteses: 1) a música soa mais familiar para os coroas (a Jovem Guarda teve muitas bandas instrumentais); 2) a música soa mais radicalmente roqueira para a turma mais xiita (como headbangers e punks); 3) a virtuosismo dos instrumentistas agrada aos não roqueiros que gostam, por exemplo, de jazz; 4) essas bandas conseguem facilmente armar shows em praças (amplificar e equalizar voz é sempre mais complicado); 5) essas bandas são normalmente trios e fica mais barato excursionar; 6) produtores de grandes festivais, como o Fabrício Nobre (de Goiânia) e o Fernando Rosa (o Senhor F, de Porto Alegre) estão interessados nesse som.


Tanto que surgiram nos últimos anos grandes bandas brasileiras de rock instrumental: Macaco Bong(Goiânia), The Tosco Dudes (Londrina – PR), Mahatma Gangue (Mossoró – RN), Retrofoguetes (Salvador – BA), Sala Especial (SP) e Pata de Elefante (de Porto Alegre, a minha predileta). E vale citar ainda Caldo de Piaba (Rio Branco, no Acre) e Burro Morto (João Pessoa – PB), ambos mais experimentais, numa direção “Hurtmold”.


Os Vulcânicos e os Beach Combers estão tão escaldados com a experiência de tocar pelas esquinas do Rio (sem tomadas à vista e sujeitos à chuva, guardas municipais, cracudos, ônibus desgovernados e outros imprevistos)  que não se incomodam nem de tocar no ainda mais precário Sinuca Tico Taco, na Lapa. É inacreditável que o carcomido casarão ainda não tenha desabado, mas a cerveja é barata, não tem couvert artístico e fica num pedaço particularmente abandonado, entre a Lapa e a Glória, e tudo isso parece soar convidativo pra uma molecada que curte emoções fortes, além de rock´n´roll.Outras boas bandas costumam tocar lá são a Sala do Sino, o Paul Serran Trio, o Sex Noise e o Ênio & A Nóia (liderado por um excelente compositor quase cinqüentão, que é meio que um guru pra toda essa turma, com quem vara as madrugadas falando de filosofia e indicando que LPs escutar). Outro ponto de encontro dessa rapaziada é o Coletivo (e estúdio) Machina, também na Lapa, fundado por alguns desses músicos.



UM VULCÃO PRESTES A ENTRAR EM ERUPÇÃO:
A TRANSFUSÃO RECORDS.
FUTURO DO ROCK CARIOCA?

Bem que eu gostaria. O mais provável, porém, é que o selo fundado em Vilar dos Teles por Lê Almeida seja lembrado, daqui a 20 anos, não como um grande negócio que salvou a indústria, mas como um prolífico celeiro de geniais e influentes bandas, ainda que eternamente obscuras. Como é o caso da midsummer madness do Rodrigo Lariú, a quem Lê deve sua formação musical– e o apadrinhamento em seus primeiros “passos firmes” (ele já gravava discos, mas muito mal e porcamente).


Lê vai reclamar comigo que aquilo era low-fi e eu é que não entendi. Bem, eu retrucaria botando pra tocar os maravilhosos discos do Suíte Parque e do Carpete Florido, e depois os compararia com os primeiros CD-Rs que ele me deu, poucos anos atrás. O salto de qualidade é gritante.


O que não mudou é o talento dessa turma para escrever canções com melodias deliciosas, riffs poderosos e ótimas letras (às vezes sobre temas inusitados, como uma bicicleta ou uma calça jeans!), tudo isso no meio de MUITA distorção e timbres estranhos. (Mas se podem haver 4 guitarras sobrepostas, também pode rolar só um violão conectado à 14 pedais, como no caso do folk psicodélico do Wallace Costa.)


São uns 20 caras que, graças à diversas combinações, criaram umas 58 bandas diferentes.É o seguinte: Fulano, Siclano e Beltrano tem juntos 3 bandas. “Sapatos” é pra tocar as composições de Fulano, “Casaco” é pra tocar as do Siclano, e se o Beltrano cantar eles se apresentam como “Guarda Chuva”. Mas se de repente o baterista trocar de lugar com o bateristas, eles anunciam a criação do “Chuva Ácida”. E se um dia resolveram versar as canções do Chuva Ácida pro inglês e acrescentarem sintetizadores, aí nasce o “Acid Nights”.  E como eles são low-fi, e isso pode significar gravar na mais adversa situação, conseguem lançar um disco novo todo mês!

Em outras palavras: é uma coisa maravilhosa finalmente acontecendo na cidade!



Algumas das bandas: LuvBugs, Fujimo, Cretina, Bad Rec Project, Badhoney, Extra Sopro Em Seu Envenenamento Desafinador, Babe Florida, Top Surprise, Loomer, Electric Lo-Fi Orchestra, Novadelic, Tape Rec, Uma Nova Orquídea Em Meu Jardim Alucinógeno, Treli Feli Repi, Flowed,Sin Ayuda,  Looking for Jenny, The Fashion Our Club, Aroflogilo Pai, Hierofante Púrpura, Trash Nostar e Gaax, além dos já citados Suíte Parque e Carpete Florido – e dos discos solo de Lê Almeida.


Estamos falando de indie rock, no sentido 90s do termo. E outra banda que pode conquistar um novo público para o gênero é a DRIVIN´ MUSIC, idealizada pelo talentosíssimo compositor Fábio Andrade, da aclamada banda de hardcore The Invisibles (do interior fluminense). Os primeiros lançamentos do Drivin´ Music (um EP, “Noite Americana”, e um álbum, “Comic Sans”) foram inteiramente gravados e mixados por Fábio, que continua cantando em inglês, mas agora trabalha a partir de outras influências: Jawbreaker, Face to Face, Sugar, Pixies, Paul Westerberg e Bruce Springsteen - segundo ele mesmo, em entrevista ao site punknet.


Só que agora o Drivin´ Music é uma all-star-band. Acompanham o Fábio: Melvin (ex-Carbona), Gordinho (Pelvs), Gustavo Matos (ex-Cabaret) e Daniel Develly (Pelvs). Aguardo ansiosamente pela chance de vê-los ao vivo!

E para terminar, listo aqui ótimas bandas que soam como se fossem da Transfusão ou da midsummer madness:

Medialunas (Porto Alegre, egressa do Superguidis), Churrus (MG), Nocturno (RJ), The Albertos, Destruidores de Tóquio (Belém do Pará), Márcio Abbes (RJ), The Concept (SP), Laura Palmer (RJ), Cassim & Barbária (Florianópolis – SC), Luneta Mágica (Manaus), Pullovers (SP, do Luiz Venâncio, que era o frontman, único compositor, arranjador e membro fixo, e que agora não finge mais ter uma “banda”), Mr. Spaceman (projero paralelo do Régis Damasceno, do Cidadão Instigado) e The Gilbertos (do Thomas Pappon, ex-Fellini),


# # #

No último domingo (1/2/14) eu e minha esposa, a Bia, fizemos uma grande descoberta no evento Agaquês, organizado pelo Renato Lima (da College Rock Party) no Sobrado Boêmia (do Grisalho, agitador de peso já fez uma década, pelo menos), na Praça São Salvador: a ótima banda iO, formada por Felipe Melo, Pedro Coquin, Rodrigo Abud e Paulo Vítor Grossi - os dois últimos foram do Alice.

Novamente o rock´n´roll vem da periferia carioca: todos eles são de Santa Cruz, extremo oeste da cidade. Me lembrou o Violins (de Goiânia), pelo peso, pela inclinação ao instrumental (as melhores canções são as que quase não tem letra)... Ah, nesse sentido do peso dá pra relacionar ao Elma, de SP – instrumental e com os 2 pés no metal, por mais que seja um metal "esquisito". Na real os caras do iO de cara me falaram que faziam "death / grindmetal", mas acho q estavam tirando com a minha cara.... De todo modo dá pra dizer isso, no mesmo sentido que dá pra dizer que o Fugazi fazia hardcore. (Só que apesar deles serem "da cena", não era bem isso.) Sempre gostei de bandas difíceis de se classificar: uma das melhores canções foi um blues, chamado "blue", que me soou como o Pink Floyd da época do Syd Barret numa versão Dave Grohl. E apesar dos 2 guitarristas serem igualmente ótimos, o Paulo Vitor volta de meia se destacava com uns belos dedilhados "indies", na onda do Pelvs. Virtuosismo + peso + lirismo, como no caso do Dinosaur Jr... Sem perder uma pegada "metal", mas do mesmo jeito que o Smashing Pumpkins tinha, em certos momentos. 



Enfim, música é pra se ouvir, e não pra se ler.

E meu esforço é apenas para atiçar sua curiosidade.
Daqui pra frente é contigo: corre atrás e escute essas canções e discos incríveis!

> Câmbio final <

# # #

Meus agradecimentos a você e aos meus outros dois ou três amigos que tiveram fôlego para chegar até aqui! Hoje em dia textos longos parecem quase uma ofensa, pra muita gente!

Agradeço imensamente aos amigos a quem pedi socorro, e que me enviaram informações importantes para esta pesquisa:

André Luiz Costa (da Cult FM), Mariano (colecionador mineiro de discos de vinil), Renato Lima (da Collee Rock Party), DJ Edinho (lenda viva, é do Kongo e começou no Crepúsculo de Cubatão), Flávio Rafael, Rodrigo Chagas (da banda The Honkers), João Maizena (DJ da pista vinil do Bukowiski, guitarrista do Maria Tontêra), Johnny (da banda Toatoa), Paulo Metello (ex-Cactus Cream, atual Nome de Filme), Vital Cavalcante (ex-Poindexter, criador da fanpage 90under no facebook, dedicada à memória da cena alternativa dessa época), Marcelo Spíndola Bacha (do selo Editio Princeps), entre tantos que agora me escapam da memória.



E em especial ao Fábio Caldeira (jornalista e produtor, ex-Imperfeitos e atual Latéxxx) e ao ao Hélio Jorge (frontman do Wilbor e professor de Artes Plásticas), que me enviaram textos longos e fartos de informação! Fecho essa exaustiva pesquisa com um depoimento do Hélio:


“Agora, entre nós, uma opinião minha: Muita banda aí precisava ter tocado na grande mídia, Mauricio. Ao contrário do que prega alguns radicais, eu acho que um mainstream capaz de catapultar bandas para grandes platéias é importante. Você listou muita gente desconhecida com bons trabalhos - é um pecado o povo ouvir apenas essas merdas que rolam por aí. Nem só de internet se escreve a memória afetiva de nossas vidas.”



Viewing all articles
Browse latest Browse all 78

Latest Images



Latest Images