Não assisti o documentário “Searching for Sugarman”, do sueco Malik Bendjelloul, em parte de birra. Eduardo Filipe foi o primeiro a me recomendar, e ao Sama se seguiram dezenas de amigos e clientes da Baratos, todos euforicamente entusiasmados com a obra do compositor e cantor Sixto Diaz Rodriguez, nascido em 1942 e filho de mexicanos que migraram para Detroit atrás de empregos na indústria automobilística. Birra porque de tanto me falarem a respeito eu fiquei com aquela sensação de que já tinha quase visto o filme.... ao invés de me pilharem, acabei “brochando”... Pois bem, acabo de corrigir esse erro, esta manhã mesmo.
Também confesso que desconfiei dos elogios hiperbólicos. Tenho a impressão de que nasceu nos últimos anos um filão no mercado fonográfico, que é o das reedições de obscuridades, e tenho a impressão de que os releases abusam da idéia de que “as grandes gravadoras são comprometidas com receitas fáceis e portanto nunca colocaram suas engrenagens a serviço da arte realmente ambiciosa ou ousada”. É claro que há algo de verdadeiro nessa afirmação: a maior parte do “maquinário” trabalha em prol dos “blockbusters”; mas eu amo a música pop (na acepção que ela teve nos anos 60 e 70, pelo menos) que nasceu do Rhythm & Blues, e reconheço no cânone do rock´n´roll mais nomes que merecem os louros colhidos do que factóides publicitários. Essa idéia, a de que “os verdadeiros heróis só são reconhecidos depois de mortos” (mesmo que no sentido figurado: valendo portanto pros casos de loucura, sarjeta, depressão etc), se alimenta não só dum certo chavão tipicamente esquerdista, mas também do hábito dos “fãs hardcore” de tirarem onda quando demonstram conhecer algo que seus amigos ignoram. Tira onda quem descobriu anos atrás o cara que só hoje, promovendo seu terceiro álbum, é a sensação do Coachella; e também tira onda quem diz preferir o Lucifer´s Friend ao Black Sabbath – pelo menos em certos círculos. E num tempo onde qualquer Zé Ruela tem 15 mil canções no seu i-pod, se destaque quem troca quantidade por qualidade, e elenca meia dúzia de nomes sobre os quais pode contar histórias que ninguém escutou ainda.
Voltando ao documentário vencedor do Oscar de 2013 (além de outros 32 prêmios, incluindo o Bafta e o Sundance):é maravilhoso. Malik Bendjelloul, que roterizou, dirigiu, montou e coproduziu o filme, é brilhante. Os travellings panorâmicos que fazem algumas passagens temporais são lindos, bem como o uso de desenhos sobrepostos sobre as paisagens urbanas, para dar o mesmo efeito. E o espectador atento notará que sua opção por uma estética sóbria e “proletária” (pobreza poética) não o impediu de recorrer a alguns poucos, mas muito bem colocados truques – como a inserção da voz do Rodriguez quando Sugar (o dono de uma loja de discos em Cape Town) rememora o telefone que recebeu no meio da madrugada, ou a animação que ilustra a chegada no aeroporto do cantor e sua filha para os primeiros shows na África do Sul. Uma belíssima sequência é a que apresenta, pela primeira vez, Rodriguez na atualidade: abrindo a janela da sua casa simplória num subúrbio decadente, e corta, ele no interior, apenas parte do seu rosto iluminado pela luz que vem do jardim, quase toda a tela mergulhada nas sombras. Gestos discretos, longas pausas, a fala mansa e incluindo o diálogo preparatório, que normalmente seria cortado na montagem final.
Não tenho nada a dizer sobre a música do Sixto Rodriguez. Muitos meses atrás comprei a edição em CD do celebradíssimo “Cold Fact”, e me decepcionou um pouco. Pelo que havia ouvir dizer, aquele disco deveria mudar a minha vida. Topei depois com a trilha do documentário (uma compilação que talvez inclua uns out-takes, já que ele só gravou 2 discos nos anos 70), que me causou uma impressão muito melhor. É claro que vale a pena escutar sua música. Mas não antes de se escutar Leonard Cohen, Bob Dylan, Neil Young, Van Morrison, Tim Buckley, Cat Stevens ou James Taylor. Na real minha lista de audições obrigatoriamente prévias incluiria nomes como Jonathan Richman, Kris Kristofferson, Lee Hazelwood, Colin Blunstone e mais uns tantos. Na minha prateleira, Rodriguez está ao lado de Steve Tilston e Jesse Colin Young. E do mesmo quilate, naquela época, houve compositores espalhados por quase todo o planeta – como o turco Bülent Ortaçgil ou o israelense Arik Einstein. Se você gosta de folk e de pop barroco (porque as letras são emolduradas por arranjos eventualmente rebuscados, não se engane), certamente precisa ter o Rodriguez em sua coleção. Eu acabei com a reedição em vinil do “Cold Fact”, presente de meu amigo John Charalambides. Como podem ver, eu não pude escapar: o DVD foi presente da Dona Marisa, cliente que enche de mimos a equipe da Baratos.
O que gostaria de discutir aqui são outros aspectos do filme: a discrepância entre a narrativa e o indivíduo que é seu personagem principal, o mito romântico nas estrelinhas dessa narrativa e algumas questões do mercado fonográfico, em especial o comportamento do público consumidor.
Voltemos à primeira entrevista com o Rodriguez, conduzida por Malik. A primeira pergunta é se o cantor tinha idéia do sucesso que sua música fez na África do Sul (não, ele responde), a segunda é se ele gostaria de ter sido um popstar de fato (Rodriguez diz não saber como responder), a terceira é sobre como ele se sustentou ao longo dessas décadas (trabalhando na construção civil) e a quarta pergunta, feita num tom que mescla indignação e surpresa, é se ele gostou de ser pedreiro. Sim, Rodriguez responde. E o diretor resmunga qualquer coisa... Malik não diz, mas as reticências me pareceram claras: um artista do patamar do Rodriguez não pode ser feliz sendo pedreiro! Pelo menos não segundo a opinião de seus fãs. Soa quase como uma violência do “sistema” contra o pobre do artista. Um ser nobre, dotado de uma alma que deve ser qualitativamente diversa da alma das pessoas comuns, não-artistas.
O mito romântico do artista atormentado, da sensibilidade privilegiada ameaçada pela brutalidade do mundo, é muito evidente no primeiro terço do filme, quando nada concreto é dito sobre Rodriguez, e desfilam os depoimentos de produtores, músicos e fãs sobre o impacto que a música teve em suas vidas, e eles especulam sobre como seria o artista na intimidade. Realmente acho difícil que as referências às drogas tenham sido forjadas única e exclusivamente pela imaginação de Rodriguez, mas tudo o mais pode ter sido apenas isso: a imaginação & observação combinadas com trabalho árduo de composição. Ninguém precisa dormir ao relento para escrever um poema sobre um mendigo, ou ser ex-combatente para escrever um bom roteiro a respeito da guerra. E todos os depoimentos no documentário são muito carinhosos, inclusive os dos amigos que não sabiam do seu envolvimento com a música. Todos o citam como um cara tranqüilo, bem humorado e até sábio. Conseguiu pagar a hipoteca, pagou pela faculdade das filhas - que estão sadias e bem encaminhadas profissionalmente -, é querido pelos colegas de trabalho, foi uma liderança do bairro e não demonstra qualquer rancor por ter sido ignorado pelas rádios. Não há uma história sequer sobre ter passado fome, dormido debaixo do viaduto, sido preso ou perdido algum amigo para a heroína. Passou perrengues de grana, mas até aí: quem não?
Mas lá pelo fim do filme, nas “falas finais” dos personagens que participaram com seu testemunho, há várias menções ao “sujeito que comeu o pão que o diabo amassou e deu a volta por cima”. Sobre a redenção que quem pôde, ainda que tarde, “voltar à posição que lhe é de direito” e que, mais importante, condiz com sua “verdadeira essência”. Isso está mais claramente colocado por uma das filhas de Rodriguez, que diz que seu pai “voltou a ser quem ele era de verdade” (quanto retoma a carreira musical). O mito romântico é mesmo sedutor.... E talvez seja porque o público, num nível talvez inconsciente, deseje se apropriar do artista. No fundo nós achamos que a vida do cara nos pertence! No fundo não gostaríamos que ele tivesse escolha! Se desse, o trancávamos numa mansão, mas o trancávamos! E dali ele só sairia para o palco. Perambular pelas ruas? Só no caso de alguém que precisa observar a vida comum assim de perto – e sob a cláusula de dar autógrafos! Só que não, né? O artista é só mais um cara, e ele pode não estar a fim de ser artista o tempo todo. Pode até ser um momento apenas. E muito breve até. E tem mais: às vezes o que ele tem para oferecer se esgota depois desse breve momento.
(Sou casado com uma professora e vejo esse mito romântico ser insistentemente usado contra o herói da história. No caso dos professores a identificação entre profissão e essência é usada para desqualificar as queixas da categoria sobre as condições de trabalho. Não importa quão malcriado seja o moleque, quão baixo seja o salário, “professores realmente vocacionados” deveriam ser capazes de “cumprir sua missão”, não importa a adversidade. Uma balela muito da perniciosa.)
Meu palpite: Rodriguez é um camarada de talentos múltiplos, que arriscou suas fichas na música, perdeu, e redirecionadas as energias para desafios mais prosaicos (mas não necessariamente mais fáceis, tipo a paternidade), protagonizou outros dramas, mais próximos da sua e da minha realidade. Curioso é que o documentário mantenha o tom épico ao tratar da vida “civil” de Rodriguez.Depois de ter sido o bardo dos marginalizados, ele se torna o ativista político e líder comunitário. (Lembre-se do bordão “think global, act local”.) Note que não estou acusando o filme de qualquer inverdade: há vários depoimentos sobre o quanto ele lia, Sixto obteve um bacharelado em filosofia, trabalhou num ramo fortemente sindicalizado e viveu sempre na mesma vizinhança. Natural que tenha feita algo como concorrer – sem sucesso - ao conselho municipal - eram 169 candidatos para 9 vagas. Esse admirável currículo poderia servir para ilustrar o caráter de Rodriguez: além de artista talentoso e pai exemplar, foi um cidadão zeloso e atuante. Mas o filme vai além quando descreve o comportamento ascético de Rodriguez durante sua primeira turnê na África do Sul, preferindo dormir no sofá ao invés de na super cama do mega hotel em que o hospedaram. (O que destoa dos testemunhos a respeito de certa vaidade do cantor: sempre aprumado, mesmo quando chegava no canteiro de obras para trabalhar.) E qual seria o problema se Rodriguez resolvesse desfrutar daqueles mimos? Rodar pela Cidade do Cabo de limusine com os cabelos ao vento e o som alto? Ficar de papo pro ar à beira da piscina, tomando um uísque? Não seria uma forra mais do que merecida?
Logo no início do filme o produtor Steve Rowland rememora o período em que trabalhou com Rodriguez e lamenta com imenso pesar que seus esforços artísticos tenham dado com os burros n´água. Se emociona pra valer quando mostra a simetria entre uma canção sobre um cara que perde o emprego às vésperas do Natal (última canção gravada para o seu segundo e derradeiro álbum de estúdio) e os acontecimentos na carreira do próprio compositor. Meu palpite é que o lamento de Steve diz respeito a todos os músicos com quem ele conviveu e que não colheram frutos à altura de seu talento. Certamente foram muitos. Provavelmente mais do que ele é capaz de listar.
Sabe qual é o verdadeiro problema?É que a música tem uma importância descomunal para as pessoas, mas ela é um ofício sujeito a regras e acidentes muito parecidos com a de todos os outros ofícios. No fim das contas é mais um negócio. E com a desvantagem de não ser um negócio imprescindível á sobrevivência humana. Tanto que há regimes políticos cruéis a ponto de suprimirem a música da vida – causando certamente muito sofrimento, mas sem matar ninguém de abstinência.
“Searching for Sugar Man” é um documentário absolutamente encantador. Desafio qualquer um a assistir sem derrubar lágrima alguma. Ou sem ser arrebatado de simpatia por Sixto Rodriguez. É impossível. Mas, a meu ver, sabe qual é o lance mais cativante de toda a película? A paixão e a dedicação dos fãs de Rodriguez.
Muita gente diz amar isso ou aquilo. Mas muito pouca gente dedica realmente energia e tempo a essas coisas que sejam condizentes com suas declarações de amor. A maioria das pessoas é bem mais apática do que gostaria de admitir. A galera gosta é de rotina, ou é simplesmente preguiçosa. O cara sobe na mesa do bar aos berros para reclamar dos políticos safados, mas pede pro cara trocar a pelada de domingo por uma passeata e veja como ele reage. E aí o filme te apresenta um cara que passa 3 anos investigando o que aconteceu com um de seus ídolos de juventude, gastando uma baita grana para atravessar oceanos, virando produtor de uma turnê e de repente até trocando de armas e virando dono de loja de discos. E não é apenas um cara, são dezenas de excêntricos apaixonados por um punhado de canções antigas!
E tirar as pessoas desse estado de apatia é muito mais difícil que fazê-las se interessar pela música de Rodriguez. Acidentalmente eu acabei fazendo um teste: o segundo depoimento do filme é do guitarrista, arranjador e produtor Dennis Coffey. Por coincidência me lembrei de ter um LP do cara aqui na Baratos da Ribeiro: “Goin´ for myself”, de 1972 – lançado pela mesma gravadora que lançou “Cold Fact”, a Sussex, e também produzido por Mike Theodore. Está à venda faz uns 2 meses, eu recomendei trocentas vezes, para trocentos clientes, e ninguém deu bola. Continua na bancada. O documentário menciona todo um movimento musical inspirado na música de Rodriguez, o Vöelvry, e dessa turma de afrikaners anti-apartheid saíram os músicos que acompanharam Rodriguez nos shows de seu triunfal retorno. Me pergunto quantos espectadores depois procuraram no Soulseek ou no YouTube por Kooskombus, Willem Müller ou Johannes Kerkorrel.
O buraco é mesmo mais embaixo. Outra das melhores cenas do documentário é a entrevista com Clarence Avant, dono da Sussex e na época empresário de Rodriguez.É um dos poucos momentos do filme em que o diretor demonstra ter coragem além de competência. Um tipo de negão tão carrancudo quanto charmoso, falando naquele tom que intimida tanto quanto seduz, colocado na desconfortável posição de representante da indústria, tendo de explicar porque o artista não ganhou uma bolada depois de vender meio milhão de discos na África do Sul. Sua defesa é brilhante. Clarence tenta sair pela tangente, tenta segurar sua irritação, até que sai da marcação, avança para próximo da câmera (e do diretor, que está fora do quadro), apenas metade do seu rosto iluminado, e diz: “A Buddah Records quebrou. Eu também fiquei de fora do negócio. Acha que eles [os fãs sul-africanos] estão preocupados com isso? Eu sei que eles estão cagando.” (ah, esses tradutores de legenda, sempre tão polidos...).
Foi a Indústria Fonográfica que “matou” a carreira de Rodriguez em meados dos anos 70? Não. Sem dúvida seus contadores e marqueteiros poderiam ser mais competentes, e feito algum esforço para aproveitar melhor o auê que havia em torno do artista fora dos Estados Unidos. Steve M. Harris, da Teal Trutone Records (segunda gravadora a trabalhar os discos na África do Sul) diz que Rodriguez foi mais popular do que os Rolling Stones por lá. A gravadora poderia ter feito ainda mais dinheiro, e dado à César ao que é de César. Mas não faltam homens da indústria dando seu sincero testemunho de como gostavam do cara. Também não tenho dúvida de que teriam adorado trabalhar de novo com Rodriguez.
Então quem matou Rodriguez? Os fãs. Foram eles que fizeram circular os boatos sobre assassinato na prisão, suicídio com tiro na cabeça diante de uma platéia zombeteira ou auto-imolação por fogo. Por quê? Porque a “jornada do herói” romântico pede algo desse tipo. E há algo perturbador no destaque que o diretor Malik Bendjelloul dá a esses boatos. É praticamente a informação que abre o filme. Um fã sul-africano dirige pela estrada à beira-mar escutando “Sugar Man” e fala desse compositor incrível, que todo mundo amava, e de como ele se matou. Malik foi encontrado morto em sua casa, em Estocolmo, no dia 13 de maio de 2014. Se Malik foi quem deu forma final ao mito do Sugar Man, é de se questionar o quanto de si esse artista projetou na obra do outro artista.
É do mito romântico que deriva a atual obsessão pelo aspecto biográfico da obra de arte.Se o artista se define por sua hipersensibilidade, que é algo inato, é mais importante que ele passe por “experiências iluminadoras” do que perca tempo estudando, por exemplo. E se a arte deve ser validada ideologicamente é melhor que o artista seja pobre, gay, louco, retirante, presidiário, índio o algum outro tipo de oprimido. Daí que os fãs de Rodriguez tenham lido a poesia de Rodriguez como uma espécie de autobiografia criptografada. Por que será que é tão difícil as pessoas aceitarem que para o fazer artístico basta a imaginação? Pode ser o fato de que imaginação todos temos. Malik Bendjelloul sofria de depressão. Mas uma decepção desse tipo pode ter tornado tudo mais difícil. E a quem duvide da afirmação que abre este parágrafo ofereço o caso de J.T. LeRoy. Trata-se do autor de “Maldito Coração”, romance adaptado para o cinema por Asia Argento em 2004. O livro, cujo título original é “The Heart is deceiful above all things”, foi lançado em 1999 por uma misteriosa figura andrógina que se esquivava da imprensa (mas comparecia aqui e ali). Ele – ou ela – teria nascido em 1980 e sofrido vários abusos sexuais e psicológicos durante a infância e adolescência. Suas narrativas perturbadoras seriam autobiográficas. Em janeiro de 2006 o New York Times revelou que a pessoa que se apresentava como J. T. LeRoy era na verdade a atriz e modelo Savannah Knoop, meia-irmã de Geoffrey Knoop, marido de Laura Albert: a verdadeira autora, que nunca passou por nada daquilo. O que não tira nenhum dos méritos literários que seus livros possam ter. Ou pelo menos não deveria! (Em 22 de junho de 2007 o tribunal considerou Laura culpada de fraude contra a editora que publicou os livros.)
O mito é também inimigo da verdade. Malik é um cineasta estupendo, e devemos lamentar pelos filmes que ele faria se não tivesse entregado os pontos aos 36 anos. Mas não foi um bom documentarista, se considerarmos que a categoria exige uma dose de jornalismo investigativo. Logo depois de lançado em 1970, “Cold Fact” começou a tocar nas rádios australianas graças ao DJ Holger Brockman. O baterista do Midnight Oil, Rob Hirts, disse à revista Rolling Stones que todos os seus amigos tinham uma cópia – juntamente com o segundo álbum de Bruce Springsteen e o debut de Billy Joel, eram a trilha de toda festinha. No começo de 1979 rolou uma turnê de 15 datas. Sim, Rodriguez excursionou pela Austrália, acompanhado de suas 2 filhinhas! Tocou em Sidney para 15 mil pessoas, mesmo público que pagou para ver Rod Stewart algumas semanas antes. O fato está registrado num álbum ao vivo que foi lançado em 1981, pouco antes da sua segunda turnê na terra dos coalas. Rodriguez realmente teve de continuar trabalhando na construção civil, mas logo depois de visitar a África do Sul em 1998 se aposentou dos canteiros e passou a se dedicar integralmente à música. Na época da montagem do documentário, e muito antes de seu lançamento, ele já tinha uma agitada agenda de shows a cumprir. Por volta de 2013 já lotava casas de 18 mil lugares nos EUA. A matéria que me forneceu essas informações está aqui:
Agora que me aproximo do fim deste artigo eu consigo entender melhor meu incômodo na época em que o documentário foi lançado, e que fez com que eu demorasse tanto para assisti-lo. Eu prefiro que as pessoas defendam a arte desse ou daquele artista sem que precisem explicar quem é o fulano. E por isso eu escutei primeiro o disco, e só depois encarei o filme. Eu acredito na autonomia da obra com relação ao autor, para colocar nos termos do meu amigo Zepka, cineasta formado pela PUC-RJ e estudante do Parque Lage. Muitos anos atrás eu me interessei pelo Proust, porque um amigo disse que foi o escritor que melhor descreveu como é estar apaixonado. E foi esse mesmo amigo, o Marcelo, quem me fez colocar Stendhal na lista de leituras futuras: quando comentou o quão precisos eram os mecanismos de ascensão social descritos em “O Vermelho e o Negro”. Já quanto à vida de Proust ou do Stendhal, eu nunca dei a mínima. Me considero um fã ardoroso do David Bowie: acredito ter comprado tudo quanto é canção que ele já lançou na vida. Aí aquela exposição com os figurinos dele veio pra São Paulo, e os amigos todos buzinaram na minha orelha. Não vi. E não quero ver. Tudo de que preciso está na música dele.
Termino com uma sugestão. De que você fique atento aos vários Rodriguez que andam por aí. São muitos, por todo canto, inclusive no Rio de Janeiro. Não espere 40 anos, até que algum cineasta resolva entregar para você, embrulhadinho num lindo pacote. Chegue na frente! Tire onda! Já ouviu falar, por exemplo, do Paulo Bagunça & A Tropa Maldita? Pois bem, esse é contemporâneo do Rodriguez. Mas eis aqui mais meia dúzia de caras que vivem no Rio, tem trampos fora da música, e que gravaram, e continuam gravando, discos incríveis:
Fábio L. Caldeira (bandas Latéxxx e Imperfeitos)
Flávio Abbes (da banda Insone, mas procure pelo disco solo chamado “Pensamento Inconstante Flutuante)
João Gevaerd (liderou Os Supernaturais, agora tem o Cash Crash)
Paulo Vítor Grossi (foi da banda Alice e hoje tem a Io)
Pedro de Freitas Branco (banda White)
Vitor Bambino(sua identidade secreta: é alfaiate!)




















