Outro dia resolvi relaxar revisitando um marco de minha infância: o filme "RAMBO: programado para matar". (Aproveitando um dos 1.800 DVDs recentemente adquiridos pelo Sebo Baratos da Ribeiro. Corra que eu só segurei uns 50 títulos: ainda restam uns 1.750 lá na livraria!)
É muito melhor do que eu me lembrava. É EXCELENTE.
NÃO mata ninguém. É curioso que as ótimas cenas de ação tenham contribuído para um sub-gênero apologético do militarismo norte-americano, e o estilo sóbrio de "First Blood" (título original) tenha descambado nos maneirismos estrambólicos que vieram depois...
Pontos maneiros que o filme aborda:
1) a marginalização dos pobres, andarilhos (e do lumpemproletariado em geral) e, portando, dos "hippies" em geral (no sentido de outsiders: Stallone poderia, por seu visual, estar no filme "Sem Destino").
2) os traumas psicológicos e físicos dos veteranos de guerra (o filme começa com uma visita de Stallone a um companheiro, que vivia num gueto negro e pobre nos arredores da cidade em que a história se passa. Lá ele descobre que o amigo morreu de câncer, provocado pelo contato com o gás mostarda usado no Vietnã).
3) a tradição miliciana do interior dos EUA - os assistentes do xerife local tentam dissuadi-lo de perseguir John Rambo quando descobrem que ele é um veterano de guerra condecorado (e também porque notam a arbitrariedade da vendetta em que o xerife está se metendo), mas o sujeito brada contra "os babacas de Washington" e se declara único responsável por "sua" comunidade, com poderes pra fazer o que bem entende (e o exagero no pesado armamento que a polícia de uma cidadezinha no cu do mundo certamente foi proposital). Além disso, o Coronel Trauman, apesar de sua patente, é totalmente hostilizado pelas autoridades locais. (Uma pena, aliás, que a interpretação do ator que faz o Coronel seja tão caricata.)
4) sociedade do espetáculo: a perseguição entra num caminho sem volta depois que chegam as equipes de TV, que pintam o pobre do Rambo como um sociopata e legitimam o circo.
NÃO mata ninguém. É curioso que as ótimas cenas de ação tenham contribuído para um sub-gênero apologético do militarismo norte-americano, e o estilo sóbrio de "First Blood" (título original) tenha descambado nos maneirismos estrambólicos que vieram depois...
Pontos maneiros que o filme aborda:
1) a marginalização dos pobres, andarilhos (e do lumpemproletariado em geral) e, portando, dos "hippies" em geral (no sentido de outsiders: Stallone poderia, por seu visual, estar no filme "Sem Destino").
2) os traumas psicológicos e físicos dos veteranos de guerra (o filme começa com uma visita de Stallone a um companheiro, que vivia num gueto negro e pobre nos arredores da cidade em que a história se passa. Lá ele descobre que o amigo morreu de câncer, provocado pelo contato com o gás mostarda usado no Vietnã).
3) a tradição miliciana do interior dos EUA - os assistentes do xerife local tentam dissuadi-lo de perseguir John Rambo quando descobrem que ele é um veterano de guerra condecorado (e também porque notam a arbitrariedade da vendetta em que o xerife está se metendo), mas o sujeito brada contra "os babacas de Washington" e se declara único responsável por "sua" comunidade, com poderes pra fazer o que bem entende (e o exagero no pesado armamento que a polícia de uma cidadezinha no cu do mundo certamente foi proposital). Além disso, o Coronel Trauman, apesar de sua patente, é totalmente hostilizado pelas autoridades locais. (Uma pena, aliás, que a interpretação do ator que faz o Coronel seja tão caricata.)
4) sociedade do espetáculo: a perseguição entra num caminho sem volta depois que chegam as equipes de TV, que pintam o pobre do Rambo como um sociopata e legitimam o circo.
Enfim, o filme é muito bem dirigido, e o final é sensacional, porque rompe com as expectativas do público.
No clímax do embate entre Rambo e o xerife, quando todos esperam uma bala na testa do vilão, o coronel entra em cena.
Rambo, que pouco fala durante todo o filme, faz então um belo monólogo sobre seus traumas de guerra e sobre a falta de perspectivas na sua volta à vida civil. Uma bela interpretação, com direito à muitas lágrimas e um abraço comovente no coronel - naquele momento super incomodado com a demonstração de afeto, apesar da óbvia intimidade / amizade que eles tem.
Vale a pena ver, de coração aberto.
"O filme de 1982 foi dirigido por Ted Kotcheff, produzido por Mario Kassar e Andrew G. Vajna, com roteiro de David Morrell, Michael Kozoll, William Sackheim e Sylvester Stallone. A história é baseada na obra de mesmo título de David Morrell, publicada em 1972. O título original First Blood refere-se à frase do personagem Rambo They drew first blood, not me!, dita durante o filme."
APROVEITO PARA RECOMENDAR OUTROS FILMES que talvez não figurem nas listas de grandes obras primas da Sétima Arte:
1) O rei da comédia / The King of Comedy (1983)
Digirido por Martin Scorsese
Jerry Langford (Jerry Lewis) é um consagrado apresentador de TV, já cansado do assédio dos fãs e incapaz de despachá-los com muita gentileza. Entre seus fãs mais ardorosos estão o aspirante a comediante Rupert Pumpkin (Robert De Niro) e a histericamente apaixonada Masha (Sandra Bernhard). Depois de se sentir menosprezado por Jerry, Pumpkin decide seqüestrar o ídolo, com a ajuda de Masha. O plano é obrigar o canal de TV a permitir que Pumpkin se apresente no horário nobre, em rede nacional.
Costumam descrever o filme como uma comédia, mas ele é soturno demais para se encaixar no gênero. A sociopatia do personagem de Robert De Niro é tamanha, e os trejeitos tão parecidos, que posso imaginar Scorsese pensando no protagonista de “Taxi Driver” (1976) em outro contexto.
O final é bastante perturbador. Uma crítica à cultura das celebridade e à espetacularização do jornalismo, na linha de “Assassinos por Natureza” (1994).
2) Klute: O Passado Condena (1971)
Dirigido por Alan J. Pakula (que também assina “Todos os Homens do Presidente” e “Dossiê Pelicano, por exemplo)
Klute (Donald Sutherland) é um policial do interior que vai a Nova Iorque procurar um amigo desaparecido. No meio das investigações, ele conhece a prostituta Bree Daniels, que teve contato com o homem que ele procura. Os dois se apaixonam e ela passa a ser perseguida por um misteriosos assassino.
Jane Fonda levou o Oscar de melhor atriz pelo papel da meretriz – inicialmente oferecido à Barbra Streisand. Em sua autobiografia Jane Fonda conta que passou uma semana antes do início das filmagens passeando pelo baixo meretrício nova-iorquino, para se preparar para o papel. Quando nenhum dos cafetões se ofereceu para "representá-la", ela ficou convencida que não era desejável o suficiente para o papel e pediu ao diretor que a substituísse por Faye Dunaway
Além de ser um excelente suspense, o filme faz um retrato curioso da prostituta. Traça um “perfil psicológico” em consonância com certo estereótipo presente no imaginário do homem comum, mas que em tempos de correição política nenhum cineasta ousaria usar. Bree tem uma renda razoável, vive num bairro bacana, é razoavelmente elegante e tem hábitos típicos da classe média ascendente, inclusive faz terapia. Há várias cenas das suas conversas com a terapeuta, e nelas Bree confessa ser frígida, e concluiu ter optado pela prostituição porque desse modo se sente no controle da situação, e essa posição de “virilidade” é uma fonte substituta de prazer. Ou seja: se um homem a fizesse alcançar o orgasmo numa relação regida por afeto sincero e desinteressado, ela largaria o ofício. As feministas devem ter odiado esse filme!
3) Sedução e Vingança / Ms. 45 (1981)
3) Sedução e Vingança / Ms. 45 (1981)
Dirigido por Abel Ferrara
Quase desisti desse filme quando, logo no início, veio a cena em que a protagonista é estuprada. Não é uma cena tão realista quanto a de Monica Bellucci em “Irreversível” (2002), e na verdade é até uma cena bem rápida, mas justamente por “Ms. 45” ter um acabamento plástico primoroso eu me incomodei com a “capitalização” estética a partir de um episódio tão violento. Com o dedo suspenso sobre o botão do eject, ponderei que não seria razoável admitir uma única abordagem (a hiper-realista) em função do tema (o estupro).
Também me lembrei da crucial cena de violência sexual no incrível “Sob domínio do medo” (1971), em que a dona-de-casa Amy (interpretada por Susan George), irritada com o desinteresse do marido (Dustin Hoffman), provoca seu ex-namorado, mestre-de-obras encarregado da reforma na casa. A cena definitivamente termina em estupro – e pior: coletivo -, mas a situação parte de uma ação voluntária da moça. O diretor cria uma situação muito dúbia, e acho difícil alguém refutar que a personagem, até certo ponto, estava curtindo aquele sexo, ainda que a violência fosse um componente desde o início. O cineasta Sam Peckinpah, do clássico faroeste “Meu ódio será sua herança”, já foi considerado o “poeta violência” e vejo aquela sequência como uma corajosa discussão acerca do tabu que é a violência no sexo – algo muito corriqueiro, pelo menos no âmbito das fantasias; para verificar basta entrar em qualquer sex shop.
Como Sam Peckinpah, o diretor Abel Ferrara pega pesado e costuma incomodar críticos e platéias de estômago fraco. É dele o “Vício Frenético” de 1992, base da película homônima que Werner Herzog lançou em 2009 – apesar das diferenças, o diretor alemão realmente comprou os direitos de “Bad Lieutenant” para criar o filme estrelado por Nicholas Cage. Ferrara, que começou com curta em Super 8, se profissionalizou em séries policiais para a TV, como “Miami Vice” e Cat Chaser (adaptação de romance de Elmore Leonard). Seu filme de 1990, “O rei de Nova Iorque”, lhe rendeu acusações de racismo, machismo e apologia às drogas.
Voltando à “Ms. 45”: Abel Ferrara é um formalista primoroso, e um bom exemplo é a composição dos quadros na sequência em que a protagonista, Thana, é encurralada por uma gangue em algum lugar do Central Park. A sequência acontece em algum monumento dentro do parque, e o diretor usa as colunas neo-clássicas, o jogo de sombras e o desenho do pátio com um arrojo digno dos grandes pintores figurativos. A direção de arte de “Ms. 45” me remete à “Blank Generation”, de 1980 (dirigido por Ulli Lommel e estrelado por Richard Hell, da cena punk nova-iorquina) e ao cult “Donnie Darko”, de 2001 (do estreante Richard Kelly). Ou seja: estudantes de cinema – e meu amigo Renato Lima, que trabalha com storyboard - vão pirar com os ângulos da câmera, composição de quadro, cortes e montagem desse filme. A trilha sonora também impressiona, e não se trata de canções.
É um triller, mas acho que Abel Ferrara também estava discutindo o feminismo radical, do tipo que fez Valerie Solanas atirar em Andy Warhol e escrever o manifesto S.C.U.M.. (publicado em 1967 e que prega o combate aos homens e a instauração de uma sociedade exclusivamente feminina). Conta a história de Thana (a bela Zoë Tamerlis Lund), que é muda e trabalha numa confecção voltada para a alta costura. Certo dia ela é violentada no caminho para casa, e ao chegar no seu apartamento ainda dá de cara com um ladrão, que a vê desgrenhada e com as roupas rasgadas, e tenta estuprá-la. Thana consegue reagir e mata seu atacante. Desesperada, acaba esquartejando o sujeito e guardando os restos na geladeira. Ela passa a andar com a pistola 45, que tomou do bandido, no bolso, e acaba intercedendo em favor de outras mulheres que vê em perigo, com consequências fatais para os homens que cruzam seu caminho.
O que poderia ser uma fábula hardcore sobre justiça acaba se tornando a história de uma seral killer. Thana vai ampliando sua concepção de “machismo criminoso” a ponto de ver como alvo um garoto chinês que estava nos amassos com sua namorada. Até o cachorro da vizinha passa a correr perigo (apesar dele ter sido útil, quando Thana literalmente faz carne moída de sua primeira vítima e a serve ao animal!). Mas a cena de maior crueldade não é a mais sangrenta: um cara começa a flertar com Thana num bar, mas logo está desabafando sobre o pé na bunda que levou da namorada, e a maluca acaba induzindo o sujeito ao suicídio.
Outro filme que deve irritar feministas e também psicanalistas. Thana é apresentada desde o início como uma tímida crônica, sexualmente travada. À medida em que vai se aprimorando como assassina, a moça vai “descobrindo” sua sensualidade, caprichando na maquiagem e aumentando o decote. O apoteótico final é um perturbador massacre numa festa à fantasia, no apartamento dos amigos de Thana, rico de simbolismos sobre gênero, criados a partir das fantasias que as vítimas usam. Na cena anterior ela está se preparando, vestindo a parte de cima da fantasia de freira e uma lingerie sensual, com cinta-liga e tudo. Ela olha com luxúria para a 45 e beija cada uma das balas da pistola, enquanto passa o batom.
”Ms. 45” parece ser uma variação temática do seu primeiro longa-metragem, “O Assassino da furadeira” (1979), sobre um artista plástico que enlouquece e vira um serial killer. Esse outro eu não vi.
4) Uma questão de classe / Class (1983)
Dirigido por Lewis John Carlino, cujo grande mérito parece ter sido o obscuro “O Dom da Fúria”, um drama familiar.
Mais um filme que vi aos 16 anos, um período particularmente deprimente em minha vida, quando estudava de manhã, cochilava depois do almoço e esperava ansiosamente pela madrugada, quando meus pais e irmãos estivessem dormindo, para que pudesse sonhar embalado pelas sessões Corujão, na Globo.
Enxerguei aqui o pioneirismo naquele estilo de comédia juvenil que John Hugues consagraria. Nele debutaram Andrew McCarthy (o par romântico de Molly Ringwald em “A Garota de Rosa Shocking”)e John Cusack, por exemplo.
Mas “Class” é bem mais dramático do que seus pares, até pelo fato do amor ir muito além do platonismo: trata de uma relação plena, sexualmente falando.
Andrew McCarthy interpreta Jonathan Ogner, que entra para um colégio particular para garotos grã-finos. Apesar dos trotes, acaba firmando sólida amizade com o veterano Skip (Rob Lowe), que se considera um sedutor sagaz. Inconformado com a inabilidade de Jonathan com as meninas, Skip decide dar um empurrãozinho no amigo, e arma um fim de semana em Chicago, para onde Jonathan é mandado com a indicação dos lugares certos para frequentar. O tímido rapaz acaba num movimentado bar, farto em “desquitatas” jovens e aventureiras. Andrew McCarthy se dá mais do que bem: acaba na cama de um motel com Jacqueline Bisset, e obviamente que Jonathan vai se apaixonar por Ellen. Só que vai descobrir que Ellen é na verdade a mãe de Skip, o que bota em risco a amizade dos rapazes.
5) O Pagamento Final / Carlitos´ Way (1993)
Dirigido por Brian De Palma
Carlito (Al Pacino) é libertado da prisão graças a um amigo, advogado almofadinha, sem-noção e junkie – magistralmente interpretado por Sean Penn. Decidido a se manter “na linha”, com planos de guardar dinheiro para poder viver nas Bahamas, Carlitos descola um emprego de gerente numa boate - eventualmente freqüentada pelos gangsters locais. Ninguém bota muita fé nas boas intenções de Carlitos, até pela reputação sinistra que ele tem no submundo, e suas novas atribuições profissionais exigem que ele seja durão de vez em quando. Mas quando ele se recusa publicamente a demonstrar respeito por um dos bandidos emergentes da área, demasiadamente vulgar aos olhos de um cara old-school como é Carlitos, ele arranja um problema realmente sério.
Provavelmente esse é considerado um filme menor de Brian de Palma, mas talvez seja meu predileto. Aliás, meu filme predileto do Tarantino é justamente “Jackie Brown”, uma assumida homenagem ao mestre. Viggo Mortensen faz um papel secundário e Luis Gusmán interpreta o bandidinho metido a figurão, Pachanga.





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